Mau humor futebolístico

Será apenas um acesso de mau humor deste escriba normalmente muito bem humorado ou nenhum clube está jogando futebol bonito no Brasil, desde a última Copa do Mundo? Alguém poderá alegar que a longa série de vitórias do Coritiba foi um feito e tanto - e foi mesmo -, mas, para mim, ainda falta uma conquista importante para o Coxa se destacar de fato e de direito do resto da turma. A Copa do Brasil está aí para tirar a prova dos nove e, até que os paranaenses ergam o caneco, eu manterei este meu desanimado estado d"alma com a prática do esporte bretão em nossas bandas.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

É impressionante como a coisa está feia. Na Libertadores, o Cruzeiro, que ameaçava dar jeito no mau futebol que assola o país, perdeu inapelavelmente para o Once Caldas, que, convenhamos, não tem bola para ganhar de um time minimamente talentoso. Para piorar, quando teve a chance de mostrar que a queda diante dos colombianos fora um acidente, a Raposa voltou a tombar diante do Galo. Fluminense, Grêmio e Corinthians, este ainda na fase classificatória, despediram-se da principal competição sem deixar saudades. O Inter até que caiu lutando, mas, como também perdeu para o arquirrival a chance de se reerguer, ficou na mesma. Até o Santos, que vai bem no torneio, está numa inanição de gols de dar dó. Que saudade daquele time vibrante do Dorival, que levava dois, mas fazia seis, com jogadores alegres, cheios das dancinhas coreografadas na comemoração de incontáveis redes estufadas.

Times que outrora brilhavam intensamente, como o Palmeiras e, mais tarde, o São Paulo, estão caindo pelas tabelas. O São Paulo chegou a dar a impressão de que seria o Milan, o Manchester United do Brasil, um time que a cada dois ou três Nacionais, fatura um ou dois.

Engano meu. Hoje, jogar para perder só de 2 x 1 do Avaí transformou-se numa tarefa impossível para o Tricolor paulista, que na última quinta esteve mais perto de ser goleado do que de se classificar. Do Palmeiras nem se fala. Aliás, do Palmeiras pouco se fala, e há muito tempo - ao menos quando o assunto é bom futebol, já que no quesito política sobram notícias no Parque Antártica. Completando o time das decepções, há ainda o Flamengo, cujo bonde invicto descarrilou diante do brioso Ceará. E aqui cabe uma ressalva: embora o resultado tenha sido ruim para o rubro-negro, o jogo da última quarta certamente foi um dos mais eletrizantes do ano.

O resumo de tudo isso é que eu não sei bem o que ocorreu com o nosso futebol depois da Copa do Mundo. Será que a falta de brilho do time de Dunga acabou contagiando os demais clubes, como uma espécie de vírus Felipe Melo? Onde estão os nossos craques? Ganso, que para mim foi o melhor jogador do País no ano passado, está atravessando uma fase que oscila entre crises existenciais por continuar no Brasil e contusões.

Fred, após um começo de ano arrasador, perdeu o condicionamento e não é mais o favorito para a camisa nove da seleção. Luís Fabiano ainda não conseguiu estrear. Ronaldinho Gaúcho vem perdendo o encanto rapidamente. Tiago Neves vem jogando bem, mas ainda não chegou ao seu melhor nível. Os veteranos repatriados penduraram as chuteiras ou não vêm jogando nada. Novos talentos estão demorando a aparecer.

O que sobra, então? Sobra Neymar. Literalmente, ele sobra na turma. O garoto está jogando o fino e amadurecendo muito. Sem abrir mão dos dribles e do futebol vistoso, tem sido mais participativo, mais articulador de jogadas, mais decisivo. É como se quisesse, sem abrir mão de ser Neymar, ser também Ganso. E sobram os times lá de fora: o eficiente Milan, o ultracompetitivo Manchester United, o encantador Barcelona. Mas isso é pouco, muito pouco para quem ama o futebol brasileiro e não quer ver o jogo bonito, nossa marca registrada, cruzando o Atlântico. Que algum time brasileiro - qualquer time! - venha me resgatar dessa profunda e inapelável fossa, é só o que peço, neste texto escrito numa sexta-feira 13.

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