Luca Bruno/AP
Luca Bruno/AP

'Me acham mau perdedor? Eu só quero vencer sempre'

Bicampeão de F-1 diz ser muito competitivo, embora se sinta mais maduro aos 30 anos

Livio Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista

Fernando Alonso

ENVIADO ESPECIAL / MONZA

Se fosse realizada uma pesquisa no paddock, ouvindo pilotos, chefes de equipe e engenheiros, sobre qual piloto é o mais completo em atividade e capaz de fazer a diferença, a maioria votaria em Fernando Alonso, espanhol de Oviedo, 30 anos, da Ferrari, campeão do mundo em 2005 e 2006, pela Renault.

Mas, a exemplo de vários grandes pilotos da história, além dos adjetivos superlativos para defini-lo, parte das mesmas pessoas que votou acrescentaria alguns comentários, como "precisa sentir a equipe trabalhando para si a fim de produzir o muito que sabe" ou "não é o melhor exemplo de perdedor".

Nesta entrevista exclusiva ao Estado, em Monza, na preparação para o GP da Itália de hoje, Alonso não se esquivou de falar sobre os muitos temas abordados envolvendo sua complexa e polêmica personalidade, apesar da contundência das questões, e comentou, ainda, a respeito de Felipe Massa, companheiro de equipe.

Você confia muito na Ferrari, apesar de nos dois últimos anos não ter projetado um grande carro, já que assinou contrato até o fim de 2016.

Sem dúvida. É a equipe mais vencedora da história. Depois de dois anos aqui e tendo experiência em outros times, estou seguro que uma hora ou outra as vitórias vão começar a chegar. O grupo é talentoso, determinado, estou tranquilo com o fato de permanecer longo tempo. Até 2008 a Ferrari era a referência na F-1. Mas aí veio aquele período de interpretação bastante particular do regulamento por parte de algumas equipes e, nesse aspecto, ficamos um pouco para trás. Em 2010 inventaram o duplo difusor, o duto aerodinâmico e, nesta temporada, o escapamento aerodinâmico. Basta um ano sem invenções para estarmos lá na luta também. Nós também, agora, seremos bem criativos no projeto de 2012.

Há um consenso na Fórmula 1 de que você é o piloto que todo time deseja, mas desde que você seja o seu líder. Quando o time divide as atenções com seu companheiro você não é o mesmo.

É a opinião que se criou depois de 2007. A razão foi a contaminação da imprensa, em especial a inglesa. Tenho 11 anos de Fórmula 1. Em 10, fui o profissional perfeito. Engenheiros, mecânicos não puderam dizer uma única palavra contra o meu profissionalismo, bem como meus companheiros de equipe. Mas em 2007, na McLaren (o outro piloto era o estreante Lewis Hamilton), a imprensa inglesa, semana após semana, contaminou nossa relação, que não era ruim. Foi isso que gerou essa impressão generalizada a meu respeito. Mas não muda nada para mim, meus valores são os mesmos, assim como o amor à Fórmula 1. Quando saí no mercado, as ofertas que recebi foram grandes, antes e depois de 2007, portanto dentro da Fórmula 1 a opinião que têm a meu respeito é a mesma.

Sua fama é de mau perdedor. Como reage quando lê ou ouve sobre isso?

Sou uma pessoa muito competitiva. Se não venço, não tenho como estar feliz. Se me consideram mau perdedor, tudo bem. Eu quero vencer, sempre. Sei que há limites, reconheço as dificuldades da Fórmula 1. Hoje tenho 30 anos, estou mais maduro, calmo, aprendi bastante e lido com essas questões de uma maneira mais tranquila.

Como explicar que seu companheiro de Ferrari, Felipe Massa, somou metade dos seus pontos no ano passado e agora vive o mesmo desgaste, enquanto em 2008 foi vice-campeão do mundo?

Com um carro difícil como o nosso é complicado mesmo (obter melhores resultados). Nossos estilos de pilotar não são diferentes, mas opostos. A forma como entramos nas curvas, freamos, tratamos os pneus. Eu sou agressivo; ele, polido. Com os pneus, em especial no ano passado, suas dificuldades são maiores. Felipe sofre bem mais que eu. Mas nossa relação é boa, a melhor dentre os times de ponta, e por conta dessa diferença de pilotagem somos complementares, o que ajuda a equipe.

No GP da Bélgica, há duas semanas, assim como em outras etapas, neste ano, ultrapassar Nico Rosberg, da Mercedes, tornou-se essencial para avançar na classificação da corrida. Você chegou e passou. Felipe, ficou atrás o tempo todo e comprometeu sua corrida.

Eu ultrapassei Nico na volta 7 ou 8, quando os pneus dele já estavam se degradando, o que me deu a chance. O Felipe ficou atrás dele depois do pit stop, quando Nico estava com os pneus novos. Com a velocidade da Mercedes no fim da reta, não é fácil ultrapassá-lo. Há algo interessante nisso. Comecei na Minardi, sempre nas últimas colocações. Depois fui para a Renault e ganhei dois títulos. Na sequência, McLaren, também dentre os primeiros. Mas ao voltar para a Renault, em 2008 e 2009, andava do sexto ao décimo lugar. Hoje vejo que pilotar no pelotão do meio era algo necessário a minha formação. Eu me desenvolvi nas ultrapassagens e vejo, agora, como aquele ensinamento é útil.

Não é o caso de desfilar acusações, mas de novo há quem diga que o fato de o principal patrocinador da Ferrari ser o banco Santander, de matriz espanhola, e você ser espanhol gere privilégios na equipe.

Bom, não? (risos) Cada um pode falar e pensar o que deseja, faz parte desse esporte. Fórmula 1 é isso, esporte público. Na mídia também, em especial na internet. A Fórmula 1 é pródiga de personalidades fortes, como Bernie Ecclestone e até há pouco tempo Flavio Briatore. Pilotos, dirigentes estão expostos a esses tipos de comentários. Na GP2 não existe nada disso.

Você atribui à vitória no GP de Cingapura de 2008 o mesmo valor da conquistada no ano passado, pela Ferrari? (Em 2008, Nelsinho Piquet, companheiro de Alonso na Renault, provocou deliberadamente um acidente para a entrada do safety car a fim de privilegiar a posição de Alonso na pista - havia largado em 15º -, o que foi decisivo para o espanhol vencer).

Depois da Espanha, o GP de Cingapura é o meu favorito. Amo correr de noite. Ganhei em 2008, 2010 e obtive lá o único pódio da Renault em 2009. Há algo na pista que se encaixa sob medida no meu estilo de pilotar. Sei que é estranho para você, mas a vitória de 2008 foi tão especial como a do ano passado. Vitória normal, para mim, considerando-se o nível de competitividade do meu carro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.