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Antero Greco
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Medalha de lata

Nuzman comanda o esporte nacional há 22 anos e vê o declínio de forma desoladora

O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2017 | 03h00

Dá aperto no coração a imagem de Carlos Arthur Nuzman, de terno e óculos escuros, chegando para depoimento na sede da Polícia Federal, no Rio, na manhã de ontem. Não por ele, que tem de se explicar de eventuais malfeitos. Mas pelo golpe que a cena representa para o esporte nacional.

O homem que comanda o Comitê Olímpico Brasileiro desde 1995, incensado até recentemente como todo-poderoso artífice dos Jogos de 2016, topa com provável declínio de poder de forma penosa, reles. Nem a garrafinha de água mineral nas mãos ajudou a compor pretenso ar de despreocupação ao ser conduzido por agentes, depois da busca e apreensão de documentos e dinheiro na casa em que mora. A chegada à PF foi constrangedora para quem se acostumou a dar as cartas como bem entende e que flana com desenvoltura por círculos governamentais de todos os níveis.

Mais tormentoso é constatar que se trata de bola cantada. Desde 2009, na votação do Rio como sede dos Jogos de 16, circulavam nos meios esportivos internacionais dúvidas a respeito da lisura do pleito ocorrido em Copenhague. Também estavam lá, empenhados no desafio, o então prefeito César Maia, o ex-governador (e agora preso) Sérgio Cabral, o ex-presidente Lula, o ex-ministro do Esporte, Orlando Silva, e personalidades de segundo escalão.

Nas altas rodas olímpicas, se insinuava que o País recorrera a “exóticos” métodos para convencer certos integrantes do colégio eleitoral do COI a se inclinarem pelo projeto. As indiscrições eram rebatidas com desdém, como se fossem só ressentimento de perdedores, sobretudo de americanos, na época fortes rivais do sonho brasileiro.

Nuzman tocou em frente a tarefa da Rio-2016 – gastou-se o que se quis, com anuência de prefeitura, governos do Estado do Rio e Federal. Soavam isoladas e tolas as vozes que questionavam a maneira como se distribuíam verbas para formar medalhistas, escolhas de locais das obras, custos das arenas, destino que lhes seria dado após a festa. Mais de uma vez críticos ficaram com a pecha de antipatriotas. Importava era o sinal de grandeza e prestígio.

Imaginou-se que Nuzman teria destino semelhante ao de Ricardo Teixeira, forçado pelo governo Dilma a sair de cena, durante os preparativos para a Copa de 2010. Teve mais sorte do que o colega do futebol. A preocupação com a reeleição em 2014 e, posteriormente, com a iminência do impeachment fizeram a presidente deposta ignorar o personagem olímpico, que ficou à vontade até para ser o centro de atenções nas cerimônias de abertura e de encerramento do evento. 

Agora, vem o embaraço de Nuzman com polícia e Justiça. E, mais do que isso, a constatação de que o Brasil desperdiçou três excelentes oportunidades para dar salto de qualidade e ter o esporte como prática saudável, meio de inclusão social e complemento de educação. Pan de 2007, Copa de 2014 e Olimpíada de 2016 serviram apenas para fomentar escândalos e farra do boi com dinheiro público.

Desalentador ver as principais entidades do esporte brasileiro com seus mandatários em saia-justa, bem justa, para usar de eufemismo. Nuzman teve os passaportes (três) retidos e, na CBF, o atual presidente (Del Nero) não põe os pés fora de nosso território, o anterior (Marin) cumpre prisão domiciliar nos EUA e aqueles que os convocara (Teixeira) tem contra si mandados de captura de Estados Unidos e Espanha.

Marcha-lenta. O Brasil jogou para o gasto, no empate por 1 a 1, na tarde de ontem, com a Colômbia. Com a classificação para o Mundial garantida há meses, Tite fez algumas experiências e viu a equipe manter o adversário sob controle na maior parte do tempo. Nenhum destaque, tampouco decepção. Mera rotina.

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