Marcio Fernandes/Estadão
No terceiro dia da competição, brasileiro fez bonito e quase garantiu o campeonato adiantadamente, mas Mick Fanning avançou e continuou na disputa com Medina pelo título mundial. Marcio Fernandes/Estadão

Medina faz história e conquista o título mundial de surfe

Surfista brasileiro vence em Pipeline, no Havaí, diante de adversários experientes e campeões como Kelly Slater e Mick Fanning

Paulo Favero - ENVIADO ESPECIAL AO HAVAÍ, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2014 | 21h33

O Brasil tem um novo ídolo esportivo: o surfista Gabriel Medina, que conquistou nesta sexta-feira o título mundial em Pipeline, no Havaí, diante de adversários experientes e campeões como Kelly Slater e Mick Fanning. É a primeira vez na história que o País garante um troféu na elite desse esporte. Outros brasileiros já brilharam na modalidade, mas nunca haviam chegado tão longe quanto o garoto de Maresias, no litoral paulista.

A façanha ocorreu durante o Billabong Pipe Masters, última etapa da temporada, disputada no Havaí. Ele já liderava o ranking mundial com uma boa vantagem sobre seus concorrentes antes do início da disputa em Pipeline, e durante a competição mostrou talento para garantir o título mundial. "Significa muito para mim poder ser o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe", disse.

Esse é o quarto ano de Medina no Circuito Mundial de Surfe, sendo que em 2011, quando estreou, ele disputou apenas quatro etapas, ganhando duas e chamando a atenção para o seu talento precoce. Logo em sua primeira etapa na elite, em Hossegor, na França, ele venceu com um show de aéreos e mostrou que daria muito trabalho. Naquele mesmo ano, ainda faturou o Rip Curl Pro Search, em São Francisco. Terminou a temporada na 12ª posição, mesmo não tendo participado de nem metade das etapas.



No ano seguinte, provou que aqueles que apostavam nele estavam certos e terminou a temporada na sétima posição, ficando duas vezes em segundo lugar nas etapas e mostrando uma consistência. Já em 2013, prejudicado por lesões, ficou em 14º lugar geral, com apenas dois bons resultados, uma segunda e uma terceira colocações. Mas ver de perto o título do amigo e conselheiro Mick Fanning deu um grande estímulo para que ele pudesse brilhar na temporada seguinte.

Só que ainda no Havaí, no final de 2013, o brasileiro se machucou em um treino livre depois do Pipe Masters. "Quebrei a perna dias depois do campeonato, em um aéreo bobo. Também não tinha dormido direito na noite anterior, estava me sentindo meio cansado, e já era meio estresse de competição. Rompi três ligamentos e minhas férias foram com gesso", relembra.

A partir daí, iniciou sua recuperação e reforçou os treinamentos funcionais com o preparador Allan Menache. Na primeira etapa do ano, em Gold Coast, na Austrália, venceu e chamou a atenção por ser o primeiro "goofy", que surfa com o pé direito na frente, após dez anos a ganhar lá. Depois venceu em Fiji e no Taiti, nos temidos tubos de Teahupoo, diante do maior especialista naquela onda, Kelly Slater.

"As etapas que eu ganhei esse ano mostram meu amadurecimento. Eram ondas com tamanho grande. Em Snapper Rocks (Austrália), estava competindo com os melhores regulares, aqueles que surfam para a direita. Depois fui para Fiji, consegui ganhar a etapa que o Kelly dominava, foi muito legal porque era um local que sempre quis vencer. Depois teve Teahupoo, pela condição do mar, todos achavam que o Kelly ou o John John iriam ganhar, mas acabei ficando calmo e obtive a vitória. Essas três conquistas foram especiais e vou lembrar para sempre", afirma.

Os importantes resultados e o título mundial colocam agora Medina no foco para 2015. Sua popularidade cresce em proporções gigantescas, ele acumula patrocínios (já tem 11) e está se tornando um ídolo para os brasileiros. Apesar da fama, garante que não vai perder a essência. "Apesar dos bons resultados que venho tendo, eu nunca mudei, sou o Gabriel de sempre, com os mesmos amigos de quando era pequeno. Trato bem meus pais e irmãos, nada mudou. Minha mãe e meu pai continuam me botando no lugar em casa e sempre fui pés no chão", conclui.

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Padrasto de Gabriel Medina tem promessas e apostas para pagar

Charles Saldanha vai fazer uma tatuagem, comer carne vermelha e tomar refrigerante para celebrar o título do surfista brasileiro

Paulo Favero - ENVIADO ESPECIAL AO HAVAÍ, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2014 | 21h37

Charles Saldanha é a pessoa que mais incentivou Gabriel Medina no surfe. Como sabe que o enteado é muito competitivo, fez algumas promessas e apostas com ele. E agora terá de pagar, porque tudo girava em torno do título mundial. Não tem muita saída.

"Vou fazer uma tatuagem, beber refrigerante e comer churrasco”, revela, antes de ser interrompido pela esposa, Simone. “Ele não come carne vermelha há muitos anos e tem pavor de agulhas. Parece fácil, mas para ele não é."

Charles começou a notar o talento do garoto logo cedo, e ajudou no desenvolvimento da sua habilidade. "Acho que minha ajuda foi torná-lo um atleta, com um pensamento de vencedor. A gente trabalhou bem o lado psicológico, o preparo físico, e eu também fui aprendendo, fui estudando o surfe."

Ele diz que nunca foi autoritário na relação com o filho, e que sempre conversou bastante para tentar chegar a um acordo para que as coisas dessem certo. "Vi que meu filho tinha um talento acima do normal e comecei a ver como os australianos treinavam, como os norte-americanos, os brasileiros... Até com o próprio Gabriel eu aprendi."

Nessa relação, Charles também saiu ganhando. "Aprendi com o Gabriel por ele ser um talento nato, por ele ter um QI esportivo acima do normal, e ele aprendeu comigo também. Eu fazia triatlo, tinha conhecimento de preparação física. Antigamente todos os treinadores de surfe só vinham do surfe. E eu não era, com isso consegui passar algumas coisas diferentes para ele."

FRIEZA

Tecnicamente Medina é muito bom e a cada ano parece melhorar. Charles também cita outra característica do garoto que faz dele um campeão: a frieza no momento de decisão.

"Em qualquer esporte, é na hora da decisão que você vai ver quem é o atleta de ponta de verdade, porque ele faz o mais difícil e consegue ir bem sob pressão. Não adianta jogar bem na primeira fase e pipocar na final. O Gabriel cresce na decisão e isso o torna um atleta de ponta, por causa da força psicológica dele. Ele é frio na competição, é determinado."

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'Tempestade brasileira' vem com força após o título inédito de Medina

Geração brasileira ganhou o apelido de 'Brazilian Storm', em uma alusão à grande quantidade de bons atletas no circuito mundial

Paulo Favero - ENVIADO ESPECIAL AO HAVAÍ, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2014 | 21h36

O Brasil não terá no próximo ano somente o campeão mundial, mas também alguns surfistas talentosos que devem brigar no topo de cima do Circuito. A geração que ganhou o apelido de "Brazilian Storm", algo como tempestade brasileira, numa alusão à grande quantidade de bons atletas, deve continuar impressionando o mundo do surfe.

O primeiro da lista é Filipe Toledo, paulista de Ubatuba, que vem chamando a atenção principalmente por seus aéreos. O garoto já está na elite e foi campeão ao mesmo tempo do WQS, a divisão de acesso. Aos 18 anos, é uma das apostas para 2015. "Ele ainda está crescendo fisicamente e vai evoluir bastante", explica Ricardinho Toledo, pai do garoto e ex-surfista profissional.

Outros dois atletas garantiram vaga pelo WQS e devem dar trabalho, mas sofrerão um pouco com a adaptação na elite: o paulista Wiggolly Dantas, de 25 anos, e o potiguar Ítalo Ferreira, de 20 anos, que recentemente venceu Gabriel Medina duas vezes na etapa de Maresias. Ele é o atual vice-campeão mundial júnior.

E não se pode deixar de lado nomes como Adriano de Souza, Miguel Pupo e Jadson André, que estão garantidos na elite, têm experiência e devem ajudar a escrever o nome do Brasil no surfe. 

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