Reprodução/Instagram
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Melhores amigas, duas escaladoras disputam uma só vaga olímpica

Modalidade é novidade no programa olímpico e fará sua estreia nos Jogos de Tóquio

Ari Schneider, New York Times

16 de maio de 2020 | 12h31

A escaladora profissional Mia Krampl, da Eslovênia, foi às lágrimas quando subiu ao pódio em uma prova qualificatória olímpica em Toulouse, na França, em dezembro, quando ficou com o terceiro lugar.

Com o resultado, Mia se classificou para a Olimpíada de Tóquio, durante a qual a escalada fará sua estreia como modalidade olímpica, no ano que vem, com o recente adiamento dos jogos deste ano. Mas as lágrimas não eram de alegria: ela estava de coração partido. No momento em que Mia garantiu sua vaga, ela privou a melhor amiga de alcançar o mesmo sonho.

Com várias modalidades esportivas novas fazendo sua estreia em Tóquio, atletas que nunca imaginaram ter uma Olimpíada no currículo viram-se subitamente atraídos pela emoção de participar do evento e sofrendo as dores da desclassificação, emoções que corredores, nadadores, ginastas e tenistas de mesa vivenciam há décadas. No surfe, a disputa pelas vagas na equipe olímpica americana colocou uma lenda contra seu discípulo. Na escalada, duas melhores amigas de uma ex-república iugoslava que nunca se imaginaram como rivais disputaram uma vaga entre si.

A Eslovênia, país de 2 milhões de habitantes na Península Balcânica, produziu alguns dos melhores escaladores competitivos do mundo, entre eles Janja Garnbret, que conquistou o topo da classificação feminina na copa do mundo desse esporte no ano passado.

Janja se classificou com facilidade para a Olimpíada de Tóquio ao vencer o campeonato mundial em Hachioji, Japão, em agosto. Com isso, restou apenas uma vaga para o restante das escaladoras eslovenas, e as candidatas mais fortes a ficar com ela eram Mia e Lucka Rakovec, sua amiga.

Em Toulouse, Mia e Lucka chegaram à rodada final, garantindo que uma delas ficaria com a última vaga olímpica do país. Durante a maior parte da disputa, Lucka pareceu estar em vantagem. Mas, na última prova, para ver quem conseguia chegar mais alto em uma parede antes de cair, Mia conseguiu avançar um movimento a mais do que Lucka, ficando com a vaga derradeira para Tóquio.

“Chorei porque sabia o quanto ela queria participar da Olimpíada", disse Mia a respeito de Lucka e sua própria reação emocional ao fim da disputa. “Ela me abraçou e me deu os parabéns, e me disse para parar de chorar, pois era hora de subir ao pódio.”

Mia e Lucka, ambas de 19 anos, se tornaram quase inseparáveis desde a primeira competição internacional da qual participaram juntas, em 2015. Desenvolveram uma grande amizade e estimularam uma a outra a treinar duro. Quem venceu hoje pode perder amanhã. Aconteça o que acontecer, elas torcem uma pela outra.

Os dois meses mais recentes criaram um novo desafio para o relacionamento das duas.

Mia viajou para Tóquio para treinar nas instalações olímpicas da cidade no início de março, poucos dias antes da gravidade da epidemia do coronavírus se tornar aparente na Eslovênia. Originalmente, o plano era ficar em Tóquio por duas semanas, mas conforme as circunstâncias em casa foram piorando, ela preferiu ficar no Japão com o namorado, que vive em Tóquio, onde as instalações de treinamento permaneceram abertas. Lucka ficou em casa na Eslovênia, onde o país inteiro ficou de quarentena.

Então a sorte das duas se inverteu. Mia não pôde mais usar as instalações de escalada em Tóquio e teve que se limitar aos exercícios que podia fazer em casa, como se pendurar nas pontas dos dedos usando uma ferramenta de treino caseiro. Na Eslovênia, os ginásios foram reabertos apenas para os atletas profissionais, e Lucka voltou a treinar. Agora é Mia quem sente inveja.

Elas conversam todos os dias a respeito do quanto se sentem preguiçosas, e de como andam a dieta e o sono. Mia disse que os treinos diminuíram de frequência, mas não está muito preocupada, pois todas as competições internacionais de escalada até julho foram adiadas.

Mia e Lucka disseram que alguns membros da sua turma de escaladores se mostraram preocupados com a possibilidade de uma briga interna antes da prova qualificatória em Toulouse. Competir umas contra as outras no circuito da copa do mundo era uma coisa. Desafiar uma a outra na busca pela única vaga restante na equipe olímpica representou um tipo diferente de pressão.

A amizade entre elas nunca se abalou. “Sabíamos que só uma de nós poderia viajar", disse Lucka. “Tentamos nos divertir com isso o tempo todo.”

“Todo mundo levou a disputa muito a sério", disse Mia. “Mesmo durante as finais, nós estávamos rindo.”

Ainda assim, o sonho de Lucka foi desfeito por uma margem mínima, de um só movimento. A escaladora chegou muito perto da vaga. Sentiu o peso do fracasso, especialmente quando os amigos e parentes tentaram consolá-la. Mas tentou se concentrar no sentimento de alegria pela conquista de Mia.

Lucka disse acreditar que todos os fracassos trazem lições e, nesse caso, as lições eram difíceis, ainda que positivas.

“Sem dúvida, é mais difícil concorrer com alguém de quem gostamos muito", disse Lucka. “Mas é preciso ter em mente a amizade, e o resultado dela me alegrou. A amizade sempre será mais importante do que as medalhas e as competições.”

Agora as duas amigas enfrentam desafios inesperados, separadas por uma distância de quase dez mil quilômetros, com muitas incertezas pela frente. Trocam mensagens com frequência, verificando se a amiga se sente bem ou se está concentrada. Não sabem quando poderão se encontrar ou treinar no mesmo espaço e, assim sendo, estão trabalhando juntas à distância, como boa parte do mundo.

No dia 24 de março, o Comitê Olímpico Internacional anunciou a intenção de adiar os jogos até 2021, dando a Mia um ano adicional de preparativos. Apesar das incertezas envolvendo a temporada de escalada de 2020, Mia se mantém concentrada na jornada olímpica. Ela disse que agora não é o momento de hesitar. Lucka disse que Mia teria que melhorar sua velocidade para a disputa olímpica.

Serão realizados três eventos principais. A prova de velocidade é disputada em uma parede de escalada de 15 metros. A prova dá aos participantes um tempo fixo para a realização de uma série de movimentos extremamente difíceis - chamados problemas de boulder - em paredes menores, de até 5 metros, com colchonetes de ginástica protegendo os escaladores em caso de queda. Na principal prova de escalada, os participantes devem subir por rotas íngremes de até 18 metros, com trechos negativos, usando uma corda de segurança para protegê-los caso escorreguem.

A pontuação de cada prova será somada para determinar o vencedor. Mia é habilidosa na modalidade principal e no boulder, mas precisa melhorar a velocidade. “Tenho certeza que estará totalmente preparada para Tóquio", disse Lucka.

Com a realização dos jogos olímpicos a mais de um ano de distância, Mia terá que reestruturar seu plano de treino. Ela começará a frequentar o ginásio assim que houver uma instalação do tipo disponível para ela.

Lucka espera logo poder treinar ao lado de Mia. Mesmo impossibilitada de disputar em Tóquio, Lucka tem planos para as rodadas da copa do mundo quando estas forem retomadas. Ela quer subir em algum pódio internacional ao lado de Mia./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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