Meninas exigem respeito

Vice-campeãs mundiais, brasileiras desembarcam com um pacote de reivindicações

Bruno Lousada, O Estadao de S.Paulo

03 de outubro de 2007 | 00h00

A seleção brasileira feminina de futebol, vice-campeã da Copa do Mundo da China, exigiu ontem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) incentivo, premiação e estrutura durante o desembarque da delegação no Aeroporto Antônio Carlos Jobim. Além disso, a equipe demonstrou desconfiança quanto às promessas da entidade de, entre outras coisas, realizar a Copa do Brasil para as mulheres, prevista para começar no fim de outubro.As jogadoras temem que a CBF não se empenhe, como ocorreu após a Olimpíada de Atenas, em 2004, quando as brasileiras faturaram a medalha de prata. Na época, a entidade prometeu uma série de melhorias e as próprias atletas admitem que nada saiu do papel.Ouvidas pelo Estado no aeroporto e mais tarde pelo telefone, várias atletas reclamaram do descaso com o futebol feminino do Brasil e da falta de estrutura. Contaram que a seleção viajou para a disputa na China sem cozinheiro e se queixaram de passar quase um mês sem comer feijão, algo que não ocorre no futebol masculino tratando-se de uma competição de ponta. E revelaram que sofreram com a alimentação inadequada.''''Comemos coisas que não estávamos acostumadas'''', declarou uma jogadora, que pediu anonimato. A seleção reivindica também mais amistosos durante o ano para não perder entrosamento e ganhar força de conjunto. A equipe só volta a campo no ano que vem. Em abril, enfrentará Gana, na China, num confronto classificatório para os Jogos Olímpicos de Pequim, em agosto.PREMIAÇÃOA seleção quer transparência da CBF em relação à definição da premiação. Acha justo saber, antes do início de qualquer torneio, quanto receberá de dinheiro caso seja campeã ou vice. O procedimento já é uma regra na seleção masculina. O grupo admitiu o desconforto pela demora da entidade de pagar o prêmio pela medalha de ouro nos Pan do Rio.A CBF informou que fará um depósito conjunto, incluindo Mundial e Pan. O presidente da entidade, Ricardo Teixeira, determinou que a premiação da seleção feminina pelo vice-campeonato seja igual à da conquista do título. Além disso, anunciou que o valor será proporcional ao destinado à equipe masculina pentacampeã mundial, em 2002 (cada titular recebeu US$ 150 mil, cerca de R$ 270 mil).''''Quero que a gente tenha um salário digno e dispute campeonatos que não durem apenas dois meses. Não dá mais para procurar emprego ou depender de pai ou mãe para pegar um transporte e ir treinar'''', desabafou a atacante Cristiane, eleita pela Fifa a terceira melhor jogadora da Copa. Ela se disse preocupada com o futuro do futebol feminino no País. ''''Ninguém trabalha de graça. Querendo ou não, isso é uma profissão.''''SOBREVIVÊNCIAPara a zagueira Tânia, se a Confederação Brasileira de Futebol tratar a modalidade com respeito, a seleção vai longe. ''''A gente fez nossa parte, falta a deles'''', cobrou. ''''A gente não pode deixar essa campanha cair no esquecimento. Vamos lutar pelos nossos direitos e tentar sobreviver no País.''''Tânia contou que o grupo conversou no aeroporto com o supervisor da CBF, Américo Faria, de quem ouviu promessas de que a entidade vai tratar o futebol feminino com ''''muito carinho.'''' ''''A gente tem de ver para crer'''', completou.A equipe do técnico Jorge Barcellos negou que tenha enviado uma carta com várias reivindicações para a CBF. ''''A gente ia passar um fax, mas não teve necessidade. Tudo que a gente queria, a resposta chegou'''', afirmou Tânia, referindo-se também ao encontro com Américo Faria no Rio.Uma das mais experientes da seleção, Formiga só acredita no progresso da modalidade no País por causa da pressão popular. ''''O povo vai cobrar também.''''

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