Menino de ouro

A arrancada fulminante e o toque consciente na saída do goleiro, sob os olhares de mais de 43 mil pessoas e diante de um adversário tradicional, deram a dimensão precisa do talento de Lucas Rodrigues Moura da Silva, ou simplesmente Lucas. O belo gol na vitória brasileira sobre a Argentina por 2 a 0, anteontem, em Belém, ilustrou a notável atuação do garoto e, sobretudo, fez crescer a expectativa sobre seu futebol.

EDUARDO MALUF, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h06

O meia já é ou será craque? Deve ser titular da seleção? Até onde pode ir? Chamá-lo de craque ainda me parece um pouco precipitado. Mas acho perfeitamente possível e (por que não?) provável vê-lo em breve na lista de nossos grandes jogadores deste início de século.

Falta-lhe um ponto importante para subir um degrau na carreira: regularidade. O desempenho no clássico sul-americano, em sua primeira vez como titular na equipe, pode lhe dar a segurança e a confiança ainda não tão presentes em seu jogo em determinadas ocasiões. Além de ajudar a diminuir a timidez, por sorte muito mais marcante nas entrevistas do que com a bola nos pés.

É, sem dúvida, um dos principais nomes do São Paulo desde a segunda parte da temporada passada. Ainda não conseguiu, no entanto, explodir e carregar o time a um grande título, como fez, por exemplo, Neymar no Santos. A capacidade técnica é indiscutível. Tem habilidade para o drible, velocidade, finaliza bem e é inteligente. Joga para a frente, na direção do gol, e não para o lado. O pecado é alternar momentos bons e ruins com relativa frequência.

Vamos recordar os últimos três confrontos de sua equipe. Na goleada por 4 a 0 sobre o Ceará, brilhou. No 0 a 0 com o Corinthians, ficou apagado. E, no emocionante empate por 2 a 2 contra o Botafogo, teve participação razoável. Os altos e baixos não são, contudo, motivo para desespero. Além de ser menino e ter tempo para amadurecer, é prejudicado pelo esquema tático utilizado por Adilson Batista.

O São Paulo vem atuando com três volantes e, em boa parte dos jogos, Lucas tem feito dupla de ataque com Dagoberto. Seu talento faz a diferença principalmente quando joga mais atrás, municiando os atacantes, entrando na área com dribles desde a intermediária ou finalizando de média e longa distância.

A expectativa é de que, com a esperada estreia de Luis Fabiano, seu futebol flua ainda mais. Terá, afinal, um atacante de peso com quem tabelar e poderá atuar na posição em que mais se sente à vontade. A reta final do empolgante Campeonato Brasileiro é boa oportunidade de mostrar poder de decisão, capacidade de desequilibrar partidas importantes. A começar pelo jogão de domingo, contra o Flamengo, no Morumbi lotado, disputa fundamental para as pretensões de ambos na competição.

Razões para acreditar em seu progresso não faltam. Apesar dos 19 anos, não cedeu aos encantos da fama e do dinheiro - só para lembrar, a multa rescisória de seu contrato está estipulada em R$ 180 milhões. Cumpre os horários com rigor, treina com afinco, mantém a proximidade da família, evita as noitadas (tão comuns no meio) e mostra ter os pés no chão ao falar de Europa, seleção, propostas...

Não acredito que vá chegar ao nível de um Neymar. Mas certamente fará sucesso, garantirá um lugar na seleção e, em não muito tempo, vestirá a camisa de um forte clube europeu.

Atletas como Lucas devem ser valorizados e tratados com extremo cuidado. A solução para 2014, depois do fracasso do Brasil em duas Copas do Mundo, é apostar no são-paulino, em Neymar, no santista Danilo, no botafoguense Cortês, entre outros jovens. Ronaldo se aposentou, Ronaldinho volta a dar sinais de queda, Kaká, nome sempre comentado, recuperou-se de contusão, mas tem um preocupante histórico de lesões, a dupla Adriano/Luis Fabiano é incógnita e Fred deixou sua melhor fase para trás.

A hora é de confiar na garotada e ter paciência, mesmo nas ocasiões adversas ou não tão favoráveis. Mano Menezes, aliás, deve a Lucas e Neymar sua primeira vitória no comando da seleção contra um adversário de ponta.

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