Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Menor aguarda decisão da Justiça após assumir disparo de sinalizador

Garoto presta depoimento na Vara da Infância e da Juventude de Guarulhos e volta para casa à espera de punição

RAPHAEL RAMOS, GONÇALO JÚNIOR , VÍTOR MARQUES, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 02h05

SÃO PAULO - O menor que diz ser o responsável pelo disparo do sinalizador que matou o jovem boliviano Kevin Espada durante o jogo entre Corinthians e San Jose, quarta-feira passada, esteve nesta segunda-feira na Vara da Infância e da Juventude de Guarulhos e conversou por duas horas e 15 minutos com o promotor Gabriel Rodrigues Alves. Segundo Ricardo Cabral, advogado da Gaviões da Fiel e do garoto, o menor teria confessado o crime.

O adolescente, de 17 anos, está protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e, por isso, o caso corre em segredo de Justiça e o promotor não quis se pronunciar.

O procedimento de praxe é que após ouvir o menor, o Ministério Público inicie um procedimento jurídico para apurar os fatos e oferecer a denúncia ao juiz da Infância e da Juventude de Guarulhos. Se for considerado culpado, como é menor, ele deve receber uma medida socioeducativa - pode ter de prestar serviços comunitários ou ser levado à Fundação Casa, antiga Febem. O caso não tem prazo para ser concluído.

Nesta segunda, após falar com o promotor, o menor deixou o Vara da Infância e da Juventude de Guarulhos por volta das 17h30 sentado no banco do passageiro do carro do advogado, que dirigia o automóvel. A mãe estava no banco de trás. Com boné, cabeça baixa e com as mãos tentando encobrir o rosto, ele foi chamado de "assassino" por algumas pessoas que se aglomeravam na rua Fenício Marcondes, região central de Guarulhos.

A estratégia de Ricardo Cabral, que é advogado do adolescente e da torcida, foi levar o menor à Justiça e desvincular o jovem da organização e apontá-lo como único culpado. Seu argumento é que a Gaviões não pode ser responsabilizada por um ato individual. "Ele comprou os sinalizadores em um camelô e pagou vinte reais. Os artefatos foram levados até a Bolívia dentro de uma mochila e ninguém sabia o que tinha dentro", diz Cabral.

A expectativa do advogado é que a confissão do menor facilite a liberação de 12 corintianos que estão presos em Oruro desde quarta-feira acusados pela morte de Kevin, dois como responsáveis e dez como cúmplices.

Cabral disse que já enviou à embaixada brasileira na Bolívia fotos e a ficha de sócio da Gaviões da Fiel do adolescente para que a documentação fosse enviada à Justiça boliviana. "Comparando a identidade dele (menor) e a ficha cadastral com foto colorida, não restará nenhuma dúvida. Eu já fiz essa comparação, e não há dúvida", disse o advogado. "Esperamos que o governo brasileiro faça a sua parte porque doze brasileiros inocentes estão presos na Bolívia."

A liberação dos corintianos na Bolívia, no entanto, não está diretamente condicionada à confissão do adolescente nem deve ocorrer nos próximos dias. De acordo com a fiscal de investigação Abigail Saba, o número de indiciados pode subir para 13 com a confissão.

Ainda na linha de que a Gaivões não é responsável pelo menor, o advogado reafirmou ontem que ele viajou à Bolívia com o consentimento da mãe. "Ele já foi para outras caravanas com a torcida e a mãe autorizou porque ele sempre foi um filho exemplar, trabalha (faz bicos) e estuda", disse. "Quando passou pela fronteira da Bolívia foi carimbada essa autorização. Isso comprova que ele esteve lá."

Dificilmente, no entanto, a torcida vai escapar de uma punição. Isso porque em excursões é necessário a presença de um maior de idade responsável pelos menores que estão no grupo. O presidente da Gaviões, Antônio Alan Souza Silva, foi quem comandou a caravana para a Bolívia.

Ainda de acordo com o advogado, os 12 corintianos que estão detidos na Bolívia não podem ser considerados cúmplices do crime cometido pelo menor. "Após o disparo, que foi feito de forma acidental, o garoto se afastou do local porque os próprios torcedores do Corinthians começaram a hostilizá-lo já que o artefato quase atingiu quem estava do lado. Nesse momento, ele acabou abandonando a mochila com os sinalizadores e foi levada pela polícia junto com os torcedores que estão presos", disse.

Cabral diz que o menor levou seis sinalizadores e usou. De acordo com o Ministério Público da Bolívia, porém, foram encontrados nove sinalizadores com os torcedores, sendo um do mesmo tipo do que atingiu Kevin. E dois torcedores tinham pólvora na mão.

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