Nando Reis, nandoreis@estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2008 | 00h00

Estamos chegando ao final de maio. O primeiro semestre voou. O tempo escorre pelas mãos, embora as evidências garantam que ele não muda sua velocidade. Tudo é impressão. Tudo é relativo ao nosso estado de espírito. As condições meteorológicas da alma ditam a forma de apreensão da realidade. Feriados demais salpicaram o calendário com exceções que quebram a dureza das regras. A excitação do que é extraordinário acelera os batimentos do coração. O segundo semestre é sempre diferente. Na imagem que desenha o ano como o vértice de um morro, estamos nos encaminhando para alcançar o topo que é seu miolo. Depois, é ladeira abaixo. Não deveria, então, o resto do ano correr mais depressa, fazer o tempo voar? Tudo é impressão.Estamos nos momentos finais dos torneios saborosos da primeira metade do ano: a Libertadores e a Copa do Brasil. Jogados identicamente em jogos eliminatórios (no torneio continental, apenas após a fase de grupos), essa forma de disputa de resolução mais rápida corresponde à dramática velocidade que faz o tempo parecer correr mais depressa. O nosso Brasileirão por pontos corridos que ocupa integralmente o segundo semestre parece transcorrer em tonalidade menos aguda, dada a sua extensão e simetria esticada de forma horizontal. Mera impressão.O sol esmaecido de maio deixa o céu azul e a ausência de chuva seca a terra e a cidade tosse. Quase que ouvimos o ruído dos espirros dos prédios, dos bairros, das esquinas dobradas pelos espasmos do pulmão ressequido. Anteontem, uma lua gorda de tão cheia vigiava as avenidas com preguiça, prontas para se deitarem e dormirem até a aurora seguinte fazê-las levantar. Quem disse que o asfalto não sente sono? Embora acredite que o escuro da noite combine melhor com o cinza desse mesmo asfalto, é nas horas avançadas que os carros diminuem o seu ir e vir, o tanto passar. Por isso mesmo a velocidade dos pneus aumenta. Pura impressão.E é tão bom chegar de noite em casa, sentar no sofá nosso de todos os dias e ligar a televisão para assistir ao futebol nosso quase que de todos os dias. Gosto muito de ver a chegada da hora para assistir àquilo que é cultivado no largo da espera e fermentado com a expectativa que dá forma a esse crescimento que se torna, quando se transforma, no resultado da grande sensação. Futebol é uma sensação. Esperar pra ver é acalentar o futuro que brota em sensação. Fonte que jorra e não esgota. Gota que desce pela parede e entra embaixo da porta. Mas não estava até agorinha, nesse mesmo instante, tudo seco e tão seco como solo que racha e quebra que só bota pra fora a flor da planta deserta de folha e coberta de espinho, que é o tal que atende por nome, cactus? Pois é. Nova impressão.É, e não sei se é porque hoje é feriado - embora o hoje de agora seja a véspera do feriado, pois escrevo antes da hora dos que lêem, como massa de bolo esparramada na forma antes de ir pro forno - mas tá um silêncio danado ali do lado de fora.Daqui a pouco começa o monte de jogos decisivos que explodem nessa quarta-feira. A bola vai rolar em dois dos quatro cantos do nosso louco mundo e muita gente daqui há pouco vai chorar enquanto vai se fartar de rir. Quarta-feira hoje é dia de feira perto de casa, assim como quinta era também o dia da feira na casa que morava quando jovem. O bom de feriado é que quase toda gente não trabalha; pode dormir até tarde. Tem gente que gosta de acordar cedo, tem gente que não. Em dias ordinários a rotina faz com que a gente se acostume ao que o corpo só responderia por obediência a obrigação. E isso não é impressão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.