Hélvio Romero/Estadão
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'Mesmo com os Jogos-16, temos uma barreira', admite atleta paralímpico

André Brasil, da natação, afirma que o preconceito ainda atrapalha o desenvolvimento dos atletas com deficiência

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2017 | 07h00

Os Jogos Paralímpicos do Rio encantaram os brasileiros, mas não foram capazes de derrubar barreiras contra o preconceito. A avaliação é de um dos principais paratletas da natação mundial, André Brasil, cujo pescoço enverga de tantas medalhas conquistadas. Ele é recordista mundial em provas dos 50m, 100m e 200m livre e dos 50m costas, dono de 14 medalhas de Paralimpíadas e 24 de Mundiais – 22 de ouro.

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As medalhas e a organização dos Jogos no Rio não mudaram em nada sua vida um ano depois da disputa. Para ele, a competição não foi suficiente para romper a barreira do preconceito e iniciar uma nova era aos atletas paralímpicos do Brasil.

“Quando a gente ainda pensa sobre legado dos Jogos do Rio, sou um pouco suspeito para dizer, mas acho que, vivo, eu não verei essa transformação. Não é ser pessimista, mas é uma coisa cultural, e acho que a gente ainda precisa de muito amadurecimento. Posso dizer até amadurecimento da raça humana, para a gente entender que a pessoa com deficiência é tão capaz quanto qualquer outra”, ressaltou o nadador, em entrevista ao Estado no CT Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, local que ele cita como o principal legado dos Jogos do Rio para o desenvolvimento dos atletas com deficiência do País. “Então, quando a gente fala de um esportista com deficiência, ainda há essa barreira, apesar dos Jogos-16”.

André Brasil é um nadador que se tornou um dos nomes mais vitoriosos do planeta entre os atletas com algum tipo de deficiência – teve paralisia infantil. Ele se prepara para o seu quinto Mundial Paralímpico de Natação, que será disputado entre 2 e 7 de dezembro na Cidade do México. Engana-se, porém, quem pensa que esse carioca de 33 anos possa viver apenas dos louros do seu passado e encerrar sem preocupações uma carreira de mais de duas décadas.

Embora tenha contraído poliomielite aos três meses de idade, por reação à vacina, André superou com várias cirurgias e tratamentos a sequela que a doença lhe causou na perna esquerda e conseguiu competir como atleta sem deficiência até 2004, antes de se tornar elegível como paratleta em 2005. A natação entrou em sua vida como maneira de reabilitação e, aos sete anos, começou a competir com garotos de sua idade.

Na Paralimpíada do Rio, ele faturou duas medalhas de prata e duas de bronze. Presenciou como o evento histórico para o Brasil trouxe uma visibilidade inédita aos atletas paralímpicos. Passado mais de um ano, destacou que hoje o esporte paralímpico depende “quase que exclusivamente” de incentivos do governo federal. Por isso, pede maior valorização aos paratletas. “Está na hora de a gente virar um pouco essa chave. Tivemos grandes incentivadores, eu tive patrocínios particulares e privados nos últimos cinco anos por conta dos resultados. Isso não pode mudar. A gente vê jovens, atletas com resultados, que são pessoas que se doam para isso. Tenho 12 anos no esporte olímpico e 12 no esporte paralímpico. Sinto-me um trabalhador assalariado. Eu vivo disso”, diz o competidor.

“Meu filho vai fazer cinco anos. E se eu paro e não tiver um trabalho, como vou sustentá-lo? Longe de querer ser coitadinho, longe de querer trazer o vínculo social ao esporte adaptado, mas acho que temos grandes homens e mulheres, batalhadores, que acreditam nos seus sonhos, mas penso que carecem de um pouco de reconhecimento por tudo o que fazem”.

André também cobra ação dos seus pares. “Muitas vezes as pessoas me chamam de chato, mas acho que chegou o momento de a gente arregaçar um pouco as mangas e mostrar quem somos, mostrar que nós estamos aqui, batalhando todo dia. E ninguém é coitadinho de nada. Estamos aqui para ralar e vencer”, disse ao Estado.

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