Fehim Demir/EPA
Fehim Demir/EPA

Mesmo durante grandes eventos, álcool continua sendo tabu no Catar

Só a Fifa terá liberação para a venda de bebidas na Copa de 2022. Em eventos como o Mundial de Handebol, proibição permanece

Vítor Marques - Enviado especial a Doha, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2015 | 06h55

A entrada do Catar na rota mundial do esporte não mudou os hábitos do país quanto ao consumo de álcool pelos estrangeiros. Um exemplo: nos modernos (e caríssimos) ginásios construídos para o Mundial masculino de handebol, em Doha, o consumo de bebidas alcoólicas continua proibido.

Como em outros locais públicos da cidade, os ginásios só vendem café, chá, água e refrigerante, seguindo as tradições do país, um estado islâmico. O álcool continua sendo um assunto tabu no Catar.

O regime de abstinência quase total do país tem apenas uma exceção programada: a Copa do Mundo de 2022, que o Catar vai promover por ter vencido uma polêmica eleição feita pela Fifa. Por pressão da entidade, que, entre os seus patrocinadores, tem a Budweiser (marca de cerveja), uma série de regras está em discussão.


Embora o Comitê Local já tenha decidido que o álcool será de algum modo liberado, ainda não se sabe se o consumo será permitido apenas nos estádios ou também em outras áreas, como as Fan Fests da Fifa. 

“O álcool não faz parte da cultura do Catar e pode não estar disponível em todos os lugares, mas o álcool estará disponível em áreas designadas. A Fifa, em conjunto com o Comitê Local, trabalhará para determinar a extensão dessas áreas”, afirma um comunicado emitido pelo Comitê da Copa do Catar, publicado no site da entidade.

Até mesmo nas grandes redes de supermercados a venda de álcool é proibida. Restaurantes do tradicional bairro Souq Waif, um dos principais pontos turísticos da cidade, também não podem comercializar bebidas alcoólicas.

Em novembro, o famoso chef inglês Gordon Ramsey fechou as portas de seu restaurante poucos meses depois de abri-lo porque teve a sua licença para vender bebidas alcoólicas revogada. Uma boa parte do faturamento do estabelecimento vinha da venda de vinhos.

A proibição atingiu outros estabelecimentos do luxuoso The Pearl-Catar, ilha artificial que se tornou um bairro rico, frequentado sobretudo por estrangeiros. Hoje, apenas alguns hotéis cinco estrelas podem vender cerveja, vinho e uísque para estrangeiros. Geralmente são hotéis de bandeiras internacionais como Hilton, Four Seasons e The Ritz-Carlton. Beber uma cerveja nesses lugares, aliás, não é nada barato. Um copo de uma marca internacional custa entre R$ 33 e R$ 50. Estrangeiros que vivem e trabalham em Doha precisam de uma licença do governo para poder comprar álcool em um estabelecimento oficial.

“Não sei por que um país árabe e muçulmano como o Catar quer receber milhares de turistas ocidentais numa Copa com hábitos tão diferentes como os daqui”, disse um motorista nepalês ao Estado. “São hábitos completamente diferentes.”

Desde abril do ano passado, Doha já recebeu cerca de 40 eventos esportivos internacionais. Competições esportivas de grande porte acontecem de três a quatro vezes por mês.

Doha é sede de um torneio de tênis da ATP, já recebeu o Mundial de natação de piscina curta e agora sedia o Mundial de handebol. A Copa de 2022 será o ápice do projeto do Catar de se afirmar mundialmente como um país do esporte.

*O repórter viajou ao Mundial a convite da Federação Internacional de Handebol.

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