O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2008 | 00h00

Não sou jogador de futebol, portanto nada sei a respeito do que deve ser a rotina de um profissional da bola. Não sei o quanto deve ser exaustivo gastar tantas horas fazendo exercícios para manter o condicionamento físico; repetir infinitamente certos fundamentos até conquistar o domínio de uma técnica que irá permitir bater um escanteio, dar um passe longo, ou desferir um chute mortal; ouvir antes de toda partida a preleção de seu técnico tentando incentivar a sua equipe, cada qual com sua retórica, cada um com seu vocabulário próprio, se é que todos não usam os mesmos jargões para obter o mesmo impacto; conviver com um bando de homens estranhos, que a cada temporada formam um grupo diferente, às vezes completamente heterogêneo, às vezes excêntrico, em outras magicamente complementar; perder horas preciosas da vida por ser privado de vivê-la da forma que a maioria dos homens livres fazem porque são obrigados a dormirem longe de suas camas para se manterem concentrados apenas no desempenho de seu trabalho; trabalharem essencialmente os sábados ou domingos quando o resto dos mortais desfruta do descanso merecido de terem suado a camisa durante a semana, das nove às seis da tarde, menos nos feriados ou nos dias sagrados. Não faço idéia de quão maçante pode ser essa vida, e de quais são os prazeres exclusivos que só conhecem aqueles que se dedicam a esse tipo de atividade. Mas sei alguma coisa do que é trabalhar em grupo, faço isso desde os 16 anos. Quando entrei numa garagem pela primeira vez empunhando um violão e disposto a transformar algumas linhas mal escritas numa música e junto de um bando de amigos acreditar estar fazendo um "arranjo", nunca mais parei. Não sei quantas folhas de papel risquei repetindo as mesmas frases em combinações distintas procurando uma resolução que me agradasse ou pelo menos parecesse surpreendente; quantas horas toquei os mesmos acordes em seqüências idênticas ou invertidas até ouvir um som que me tocasse intimamente; quantas noites deixei de dormir por estar completamente embriagado pelo efeito hipnótico de tocar a mesma música, "outra vez", "de novo", "vamos lá, pessoal!", "só mais uma por favor", "eu sei que o sol já nasceu mas acho que se a gente tocar mais uma vez vai ficar melhor?"; eu sei o que é ter que subir ao palco de baixo de sol, de lua, de chuva, com calor, com frio, com febre, com dor, com sono, com raiva, às sete, oito ou nove da noite, às três, às quatro, às cinco da madrugada - e depois voltar correndo pro hotel, só com o tempo de fazer a mala e se mandar pro aeroporto, pra van, pra rodoviária. Eu sei o que é passar a vida ensaiando uma mesma canção e na hora agá por algum motivo imprevisível, seja porque avistou uma menina linda, porque caiu uma folha ou simplesmente porque o cadarço do sapato desamarrou você errar justamente a letra que você canta todos os dias, errar um acorde que você toca sempre, desafinar uma nota que sua garganta cantaria quase sozinha, e se sentir um idiota porque não foi capaz de fazer direito justamente na hora que deveria ter feito. Como escrevi há pouco, algumas linhas acima, não sei nada do que deve ser a vida de um jogador de futebol. Só sei que o que ele escolheu pra fazer na vida é algo que, para ser bem sucedido, não depende apenas dele. Depende de mais gente, de gente que ele pode gostar ou não gostar, pode conhecer ou não conhecer; depende até da chuva, do dia, da noite, e mesmo do vento. Depende da sorte, depende do acaso, depende da força, depende do pé, da perna, do tronco, dos braços, dos olhos, do pensamento. E, por isso mesmo, o que alguns chamam de esporte eu chamo de arte, eu chamo de graça, eu chamo mesmo de vida.

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