''Meu negócio é ganhar corridas, disputar títulos''

Sebastian Vettel [br]Piloto da equipe Red Bull de Fórmula 1[br]É um dos principais favoritos desta temporada

Entrevista com

Livio Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

É provável que se Sebastian Vettel, da Red Bull, não conquistar a pole position do GP da China, no circuito de Xangai, não chore como fez na prova de Interlagos, em outubro passado, ao perder a disputa do título para Jenson Button, da Brawn GP, hoje Mercedes. Mas esse alemão talentosíssimo de 22 anos é assim mesmo: corre com o coração. E, graças à eficiência do carro da Red Bull, Vettel, é o favorito da grande maioria na Fórmula 1 não apenas para estabelecer a pole na quarta etapa do campeonato como para vencê-lo.

O treino que definirá o grid em Xangai começa às 3 horas deste sábado, com transmissão ao vivo da TV Globo. A baixíssima temperatura na região da pista pode propiciar surpresas.

Ontem, antes ainda das duas sessões livres do GP da China, Vettel falou com exclusividade ao Estado. "Sou, sim, representante da geração influenciada pelo sucesso de Michael Schumacher"", disse.

Franco, espontâneo como quase ninguém pode ser pelas leis anacrônicas de comportamento da F-1, Vettel por vezes denuncia sua tenra idade ao expor certa inocência. Faz sentido: o austríaco Dietrich Mateschitz, proprietário da Red Bull, investe cerca de ? 200 milhões (R$ 472 milhões) por ano na categoria e deseja resultados. E os maiores responsáveis por conquistá-los são, essencialmente, os pilotos. Vettel em particular, por ser, de consenso, mais dotado que o companheiro, Mark Webber. O alemão soma 37 pontos no Mundial, como Fernando Alonso, da Ferrari. O líder é Felipe Massa, companheiro de Alonso, com 39.

Você nunca escondeu que Michael Schumacher é seu ídolo e disse ter seu pôster na parede do quarto. Ainda o mantém lá?

Não. É verdade, Michael inspirou mais de uma geração de jovens na Alemanha, entre eles a mim, a ponto de manter seu pôster em casa até meus 13 ou 14 anos. Depois disso, o substituí pelos de mulheres peladas.

E hoje, como é correr, disputar o mesmo espaço com aquele que foi a referência para escolher sua profissão?

Quando me encontro na pista, não importa com quem estou lutando. Lembro-me da minha primeira temporada inteira, em 2008, na Toro Rosso. Acabei me envolvendo numa disputa roda a roda com Fernando Alonso, ele na Renault, em Hockenheim, durante várias voltas. Venci. Somei um ponto com o oitavo lugar. Era o máximo para mim na época. Mas depois da bandeirada comecei a refletir que havia ganho de Fernando Alonso, duas vezes campeão do mundo. Foi demais. Hoje o vejo, assim como a Michael, como adversários, o desafio é o mesmo que superar qualquer piloto.

Você reúne todos os elementos para chegar ao título. A opinião é da maioria na Fórmula 1. O que lhe daria o título também de o mais jovem campeão da história. Sente a pressão?

Para ser campeão você tem de estar no lugar certo, na hora certa.

Você está...

O fato de termos sido os mais rápidos nas três primeiras corridas não quer dizer que será assim até o fim do ano. Para sermos campeões temos de evoluir o carro, como os outros farão, para manter essa pequena vantagem a nosso favor. Corrida se ganha na pista. Vimos este ano o que aconteceu (Vettel liderava com folga as duas primeiras etapas do calendário, Bahrein e Austrália, e enfrentou problemas no carro). Nunca é fácil e nunca foi para mim. Nas categorias de acesso, estive perto de interromper a carreira por falta de dinheiro. Devo muito à Red Bull por ter acreditado em mim. Aprendi muito nesses momentos de dificuldades. Se você se desesperar, aí, sim, será o fim. Você vai com certeza errar. Na última corrida nós vencemos, ótimo. Acalmou tudo na equipe. Mas se tivesse chegado em terceiro, diante do que ocorreu antes, já me sentiria satisfeito. O campeonato é longo.

Você diz ter gratidão com Mateschitz. Ele, porém, já afirmou que a forma de mantê-lo na Red Bull é oferecendo um carro vencedor. Aceitaria um convite da Ferrari?

Mateschitz falou a verdade, como sempre. Ele ama a Fórmula 1, coloca muito dinheiro aqui. Mas sabe também que meu negócio é ganhar corridas, disputar títulos e que se isso não for possível na Red Bull vou procurar outro time, Ferrari, McLaren... Mateschitz disse tudo.

Você tem 22 anos e já é um homem muito bem-sucedido financeiramente (estima-se que receba ? 8 milhões por ano - R$ 18,9 milhões -, mais bônus por vitória e eventual título). Como é ter uma conta bancária como a sua sendo tão jovem?

É verdade, se você me comparar com meus amigos, todos estudantes, verá que estou fazendo um trabalho melhor, ao menos financeiramente (risos). Mas não me vejo diferente deles. Gostamos das mesmas coisas. Ok, eu adoro pilotar carros de grande potência, rápidos, e minha condição me permite tê-los. Fora disso, não é diferente. Mais que dinheiro, possuo a possibilidade de aproveitar a vida, não estou doente. De que adiantaria ter tanto dinheiro e não poder usufruí-lo? Lembro da vitória com a Toro Rosso em Monza, em 2008 (no GP da Itália). Eu no pódio, aquelas pessoas enlouquecidas lá embaixo, a minha equipe, da mesma forma. É disso que você se recorda, dessa carga forte de emoção, não se o seu salário ou o bônus pela vitória caiu na sua conta bancária.

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