Meu tio corintiano

Monsenhor Jorge Simão Miguel é conhecidíssimo em Piracicaba, onde celebra missas na paróquia de Vila Rezende há décadas, faz batizados, casamentos, ajuda pessoas carentes... É famoso na cidade também por seu fanatismo pelo Corinthians. Não perde um jogo do "Timão" e exibe na parede da sacristia de sua igreja a camisa alvinegra com autógrafos de craques como Sócrates. Mas corneteia a equipe como qualquer torcedor. É típico corintiano: reclamou de Tite durante a temporada, mas agora o técnico é herói e tudo é festa. Ainda zomba da dor de cotovelo dos adversários.

EDUARDO MALUF, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2011 | 03h06

Padre Jorge, como o chamo, é meu tio. Ele ilustra bem o sentimento da Fiel desde aquele início de ano vergonhoso até o final de glória com o título brasileiro.

Era fevereiro, almoço na casa de sua irmã, minha tia Amélia, em Capivari. Prato principal: quibe cru, claro. Um dos assuntos, como de costume, foi o Corinthians. Na ocasião, padre Jorge e milhares de corintianos queriam a demissão de Tite e a dispensa de vários atletas.

A revolta era justificável. O time, afinal, acabara de ser eliminado na pré-Libertadores por um oponente inexpressivo, o Tolima. A derrota encerrou a carreira de Ronaldo, mandou Roberto Carlos para a Rússia e fez explodir crise no Parque São Jorge. Era impossível imaginar uma reviravolta.

O presidente Andrés Sanchez, novo popstar da Fiel (rótulo que, para mim, tem boa dose de exagero), acertou em manter Tite no comando técnico, não se desfez da base e tratou de levar a paz de volta ao clube.

Aquele grupo, no entanto, não parecia capaz de brigar por algo maior na competição nacional. Essa era a constatação de padre Jorge e, creio, da maioria. A equipe começou bem o Brasileirão, mas sem encanto. Até que apareceu pela frente o São Paulo, em junho. Os corintianos infligiram surra de 5 a 0, iniciaram arrancada e dormiram por várias semanas numa confortável liderança. "Acho que dá", constatou o monsenhor, já com semblante diferente.

Alguns tropeços formaram novas nuvens negras no Parque São Jorge, o primeiro lugar escapou e a desconfiança voltou a atormentar o corintiano. Tite, novamente, ficou ameaçado. O clássico contra o São Paulo, pelo segundo turno, em setembro, decidiria o futuro do treinador. Era a chance da revanche para o Tricolor. Os são-paulinos, porém, apesar do domínio em campo, mais uma vez amarelaram diante do rival. No fim, o 0 a 0 marcou a recuperação alvinegra e elevou o moral do grupo.

Início de novembro, novo encontro de família. "O Vasco está jogando mais que o Corinthians, não sei se seremos campeões", desconfiou padre Jorge, questionando outra vez o trabalho de Tite. Retruquei que o treinador não poderia fazer mais, pois o elenco tinha suas limitações. Ressaltei, contudo, a força de vontade daqueles jogadores. De 1 a 0 em 1 a 0, o time ficaria com o título.

No domingo, padre Jorge sofreu com o Palmeiras, mas finalmente soltou o grito de campeão. E não deu bola para palmeirenses, são-paulinos e santistas, que criticaram o futebol corintiano: "O que interessa é que o Corinthians é penta". De fato, é o que vai ficar na história.

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