Márcio Fernandes/ Estadão
Márcio Fernandes/ Estadão

Michael Johnson defende tênis tecnológicos e minimiza ausência de Bolt em Tóquio

Astro do esporte norte-americano afirma que será impossível conter a evolução dos calçados esportivos

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 15h00

Polêmica do momento no atletismo, os tênis tecnológicos são inevitáveis, na opinião de Michael Johnson. Em entrevista ao Estado, o astro do esporte norte-americano afirma que será impossível conter a evolução dos calçados esportivos. Mas faz uma ressalva: a tecnologia será justa em termos esportivos somente se todos os competidores tiverem acesso a ela.

"Acho que a grande questão é sobre se o tênis é justo. E só é justo quando todo mundo pode ter acesso à mesma coisa. Quando somente poucas pessoas têm acesso a algo, então não é justo. No final das contas, essa é uma questão de como cada modalidade vai colocar uma linha, um limite nas regras em termos de inovação", disse o dono de quatro medalhas de ouro em Olimpíadas, em evento do prêmio Laureus, em Berlim.

A polêmica com os tênis tecnológicos surgiu quando o queniano Eliud Kipchoge se tornou o primeiro homem a completar a maratona em menos de duas horas usando um protótipo da Nike batizado de AlphaFly, em outubro do ano passado. O tempo da prova não foi homologado em razão das condições da corrida, não oficial e com características únicas.

Em fevereiro, a World Athletics, a federação internacional de atletismo, anunciou regras limitando o uso deste tipo de tênis. E uma das principais restrições vai justamente ao encontro da opinião de Johnson: os calçados tecnológicos precisam estar à venda nas lojas para facilitar a acesso a todos os atletas.

Para o dono de oito medalhas de ouro em Mundiais, as inovações tecnológicas são comuns no esporte. "Isso acontece muito no golfe, por exemplo. Surgem melhores tacos, melhores bolas. Eles são diferentes em comparação aos últimos 30, 40 anos. Os equipamentos estão cada vez melhores. Você consegue acertar a bola mais longe, com mais precisão."

E lembra também como o tênis, a modalidade, já foi diferente, em épocas em que as raquetes eram feitas de madeira. "Hoje é possível acertar a bola com mais força e com menos esforço. E, com certeza, em todos os esportes os equipamentos continuam a evoluir, a ficarem cada vez mais leves. Inovação não é algo novo no esporte. Mas, com certeza, cria desafios e as federações esportivas precisam decidir onde vão colocar essa linha na regra para delimitar até onde se pode ir com as inovações."

Às vésperas de mais uma Olimpíada, Michael Johnson se diz ansioso. Atualmente atuando como comentarista, ele acredita que o atletismo seguirá em alta nos Jogos, mesmo sem poder contar com a estrela Usain Bolt em Tóquio. Após fazer sucesso nas pistas e também com o público nas últimas três edições da Olimpíada, o jamaicano se aposentou no Mundial de Atletismo de Londres-2017.

"Acho que temos tantos grandes atletas tanto na pista quanto no campo que não precisamos que eles quebrem mais nenhum recorde mundial para que o esporte seja incrível. O atletismo já é incrível quando você tem oito pessoas numa final e só uma vencerá. Eu prefiro focar em assistir a uma competição na expectativa de saber quem vai vencer. E não se vai ter quebra de recorde ou não", afirmou o americano, que era o dono do recorde mundial dos 200 metros (19s32) até que Bolt impôs a nova marca (19s19) no Mundial de Berlim-2009.  

Aos 52 anos, Michael Johnson apresenta boa saúde. Em setembro de 2018, aquele que já foi o recordista mundial dos 200m e dos 400m, e único homem a vencer as duas provas na mesma Olimpíada, em Atlanta-96, sofreu um acidente vascular cerebral. Foram três meses de recuperação. Mas ele garante que está 100% no momento.

"Eu estou bem. Obrigado por perguntar. Felizmente, eu consegui me recuperar bem e voltar para o normal, para a minha cotidiana. Acho que tive muita sorte”, disse o ex-atleta. Logo após o acidente, ele comentou que seu primeiro desafio foi uma leve caminhada ainda no hospital e a distância tinha, ironicamente, 200 metros. "Levei 15 minutos para percorrer aquele trecho", recorda.

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