Mil dias

Faltam mil dias para o pontapé inicial da Copa do Mundo do Brasil.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Essas datas cabalísticas sempre nos instigam a fazer reflexões, projeções e exercícios futurísticos em geral. No caso do Mundial de 2014, toda a mídia se dedicou a projetar o que falta para que o País consiga organizar um evento a altura do que imaginamos ser o nosso indiscutível protagonismo no mundo atual - ainda que façam falta diversos avanços políticos e sociais para nos tornarmos o último biscoito do pacote, como muita gente por aí alardeia que já somos.

Coisas que vão muito além da hospedagem de uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Talvez por não achar que esses eventos sejam uma panaceia capaz de colocar nosso país entre as nações mais avançadas do planeta, muito embora tenha ficado feliz com o fato de podermos acompanhá-los de perto, eu prefiro, em vez de olhar para frente, colocar a lanterna na popa para enxergar de onde viemos.

"A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos." A frase, proferida por Winston Churchill em discurso à Câmara dos Comuns, tornou-se célebre ao longo dos tempos. Célebre e absolutamente verdadeira, ainda mais neste período de políticos tão desacreditados. E se analisada à luz da política do futebol brasileiro, o pensamento de Churchill torna-se ainda mais cáustico e preciso.

Houve um tempo em que os jogadores eram o elo mais frágil da cadeia de forças do futebol. A autoridade pertencia à antiga CBD e às federações. Depois vinham os clubes e seus cartolas. A rigor, a CBD nem era a maior força, posto que quem mandava mesmo - no futebol e em absolutamente tudo naqueles idos - era o governo militar e seu partido político. "Onde a Arena vai mal, põe um time no campeonato nacional. Onde vai bem, põe um time também" - eis a máxima cruel, que desaguou em lamentáveis campeonatos com quase cem clubes. Os jogadores? Esses apitavam muito pouco ou quase nada.

Longe de serem os milionários de hoje, os jogadores de ponta daquela época não ganhavam o suficiente para integrar a elite econômica do país.

Pelé, o maior de todos, ganhou como atleta o que hoje ganha um jogador mediano num time de ponta do futebol europeu. Em um ano de Santos, Neymar deve ganhar mais do que o Rei ganhou durante todo o tempo que passou na Vila. Nos tempos de Pelé, os jogadores jogavam bola e torciam para receber sua graninha no final do mês. Não tinham sindicatos e jamais eram ouvidos em questões internas dos clubes. Isso permaneceu mais ou menos assim até que os jogadores do Corinthians, liderados pelo imenso Doutor Sócrates, iniciaram um movimento que a história consagrou como "Democracia Corintiana".

Vários tabus daquela época - uma época de grande efervescência, de reabertura política e de passeatas pelas diretas - foram quebrados pelo grupo de jogadores corintianos, que contava ainda com nomes como Wladimir, Casagrande, Ataliba, Zé Maria, Zenon e Eduardo. Esses atletas trocaram a leitura do caderno de esportes pelo de política, acabaram com a concentração e resolveram no voto as principais questões envolvendo o time, inclusive as contratações. O movimento ganhou força com a eleição de Waldemar Pires para a presidência do clube, encerrando o reinado de Vicente Matheus. Ainda que sem um título nacional, o time teve sucesso dentro das quatro linhas, faturando o bicampeonato paulista de 1982 e 1983.

De lá para cá - e não por culpa da Democracia Corintiana - o poder dos jogadores de futebol cresceu e se desvirtuou. Os salários são estratosféricos, o chamado "grupo" consegue derrubar técnicos com impressionante facilidade e, quando se tornam ídolos, muitos craques se julgam no direito de exigir toda sorte de privilégios. Os craques de hoje não querem saber do caderno de esportes nem do de política: preferem as revistas e sites de celebridades. Como consequência, a cartolagem voltou a mandar e desmandar no pedaço. Acho que escrevi tudo isso apenas para dizer que, a mil dias da Copa, o Brasil precisa como nunca da inteligência e da coragem de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Força, Doutor!

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