Milionário, 'PSG versão Catar' não é unanimidade

Torcidas organizadas, parte da imprensa e meio político criticam gastos do fundo catariano que adquiriu o clube

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h09

O dinheiro investido pelo Qatar Sports Investments (QSI) pode ter sido suficiente para arrebatar 100% do capital do Paris Saint-Germain (PSG), mas não 100% de apoio de torcedores, da imprensa esportiva e do meio político da França. Chamado "PSG versão Catar" - muitas vezes de forma pejorativa -, o clube conseguiu atrair estrelas como Ibrahimovich, Thiago Silva ou Lucas, mas ainda não fez o bastante para conquistar o coração de todos os vermelhos e azuis, muitos dos quais avessos à recente invasão econômica dos árabes no país.

Até maio de 2011, o PSG era um clube que se arrastava pelos gramados da França, mal administrado, relegado à parte de baixo da tabela e, não raro, em luta contra o descenso. A mítica temporada de 1993-1994, comandada por Raí, já estava distante no imaginário de seus torcedores e o mais presente eram as críticas às duas últimas eras do clube: a do Canal+ e a de Colony Capital, ex-proprietários. Em ambas as administrações, os balanços mostravam um clube afundado em dívidas e um time fraco.

Depois de muitos rumores sobre novos investidores, coube finalmente ao sheik Nasser Al-Khelaifi a missão de levar o PSG a um patamar que ele jamais chegou a alcançar: o de um dos megaclubes da Europa. Só nos primeiros seis meses de administração , Al-Khelaifi fez investimentos de € 89 milhões em jogadores.

Tenista. Mundialmente conhecido ao chacoalhar o futebol do continente, Al-Khelaifi na verdade tem uma ligação com o esporte muito anterior à compra do clube. O milionário proprietário do QSI foi tenista profissional e acumula os cargos de presidente da federação catariana e vice da federação asiática da modalidade. De quebra, é presidente da Al Jazeera Sports, braço esportivo da rede de TV mais influente do mundo islâmico - que agora também investe na França.

Ao comprar 70% do PSG, clube que agora preside, Al-Khelaifi traçou como meta colocar a agremiação entre as mais importantes do continente no curto prazo e iniciou a série de contratações para atingir seu objetivo. Os investimentos e a presença constante o tornaram uma celebridade intrigante na França, que divide cronistas esportivos e é criticado pelo meio político pelos altos salários pagos.

Em meio a tanta polêmica, o sheik teve direito a um boneco próprio entre os "Guignols de l'Info", um dos programas humorísticos de maior sucesso do país. Nele, Al-Khelaifi aparece sempre acompanhado de Leonardo. Ambos jogam Banco Imobiliário pelas ruas de Paris, mas sua voz não é jamais ouvida. Suas declarações são verbalizadas por Leonardo, em geral acompanhadas de uma sentença: "É barato. Vamos comprar".

O problema é que na França nem todo mundo ri dessas piadas. Desde a compra, torcedores que costumavam participar de organizadas com reputação fascista fazem campanha contra o QSI. "A França se vendeu às finanças islâmicas. É o início da implantação da charia (lei islâmica)", diz S.T., um torcedor parisiense que abandonou o Parc des Princes em nome de um delírio: "Vai ser necessário fazer outra revolução para tirá-los do nosso país". COLABOROU FERNANDO FARO

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