Marcio Fernandes/Estadão
Mineirinho curte a conquista do título mundial com a noiva, Patrícia Eicke, no Havaí.  Marcio Fernandes/Estadão

Mineirinho se diz honrado pelo título conquistado no Havaí

Surfista curtiu muito o seu primeiro dia como campeão mundial 

Paulo Favero, enviado especial ao Havaí, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2015 | 07h00

Adriano de Souza, o Mineirinho, batalhou uma década no Circuito Mundial de Surfe para mostrar que poderia chegar lá. Com a vitória no Pipe Masters, no Havaí, mostrou ao mundo seu talento e a primeira atitude que fez quando chegou na casa que a noiva alugou para acompanhar de perto a disputa foi rezar com a sogra Darli Stahelin e agradecer a Deus pelo título.

“Ainda estou tentando entender tudo isso. É muita gratidão após o título, é muita adrenalina, agora é curtir e descansar. Da forma que foi, é incrível. Acho que Deus caprichou no meu título mundial. Estou muito honrado de ter finalizado meu ano dessa forma”, afirma o surfista, que destacou o que mais te impressionou na temporada. “Acho que foi vencer o Pipe Masters.”

A vitória veio de forma dramática, na semifinal da competição, e nem mesmo ele esperava que fosse dessa forma, com triunfo na etapa, título mundial no fim da temporada e ainda por cima vendo o amigo Gabriel Medina na decisão com ele e levando de quebra a Tríplice Coroa Havaiana.

“O Gabriel estava surfando muito, com posicionamento bom, vinha com força e determinação. Na final sabia que estava competindo contra o melhor do evento, mas venci e dedico esse troféu ao Ricardo”, diz Mineirinho, sobre Ricardinho dos Santos, seu amigo que foi morto por um policial em janeiro no litoral de Santa Catarina.

Desde 2006 Mineirinho está na elite do surfe e sempre sonhou com o momento. Talento desde cedo, chegou a ficar perto, mas nunca teve uma temporada tão brilhante, com vitória em duas etapas, em Margaret River e em Pipeline. “Eu corri muito atrás desse campeonato. A cada bateria que o Mick passava, as chances diminuíam. Mas o Gabriel me ajudou muito eliminando o Mick na semifinal e deu tudo certo. Esse troféu é um sonho que virou realidade. Quero curtir muito isso, intensamente”, diz.

O surfista volta para o Brasil na próxima semana e deve desfilar em carro de bombeiros no Guarujá. Ele confessa que ainda não caiu a ficha do título e não quer imaginar como será sua recepção em casa. “Sinceramente, não tive nem tempo de pensar nisso”, afirma.

Para Mineirinho, muita coisa boa deve vir nos próximos anos e essa geração talentosa de atletas tem tudo para conquistar ainda mais troféus para o País. Ele cita Gabriel Medina e Filipe Toledo como ótimos surfistas, mas vê garotos já mostrando resultados desde cedo. Ele sabe que seu título mundial vai inspirar algumas gerações de atletas brasileiros “A fase dos brasileiros é muito boa. 

Eu me sinto muito feliz por ter ajudado neste caminho. O Gabriel foi campeão mundial no ano passado, agora fui eu. Podemos ter outros no futuro. O importante é trabalhar sério, se dedicar e acreditar”, conclui o campeão mundial.

3 PERGUNTAS PARA: Adriano de Souza, surfista

Você construiu esse título em dez anos. Imaginava que seria assim?

Foi muito melhor que meus sonhos, mais do que planejado. Agradeço a Deus pela oportunidade e por poder trazer um título mundial para casa.

Em 2014, você ligou para o Medina, disse que queria ser o primeiro brasileiro campeão, mas torceu por ele. O quanto a vitória dele te inspirou?

A gente é amigo, colocamos nossos valores na mesa, e isso enaltece suas vitórias. O troféu saiu da mão dele e senti que ele ficou um pouco magoado.

Você sempre mostrou que o surfista brasileiro merecia respeito e tinha condições de brigar de igual para igual com as maiores potências. Todo o esforço valeu a pena?

Valeu! Quer melhor exemplo do que isso que está acontecendo agora, com dois campeões mundiais consecutivos?

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Aliviada, família do campeão celebra conquista no mar

Um dia depois do título, mãe de Mineirinho vai à praia do Tombo, no Guarujá, para rezar e 'agradecer a Deus'

Carlos de Souza, ESPECIAL PARA O ESTADO

19 de dezembro de 2015 | 07h00

Os dez anos que Adriano de Souza, o Mineirinho, levou para conquistar o título do Circuito Mundial de Surfe causaram muita expectativa e ansiedade em familiares e amigos do surfista brasileiro. Ontem, um dia depois do título conquistado no Havaí, o dia foi de festa, mas também de agradecimento e alívio. Luzimar Maria de Souza, de 55 anos e mãe do atleta, foi ao mar e rezou pelo filho. 

Após uma noite em que quase não dormiu por conta da emoção, ela foi à praia do Tombo. “Fui agradecer a Deus. Dei um mergulho rápido, porque nem sei nadar. Me molhei um pouquinho e, aí, peguei meu terço e rezei três vezes.”

Em sua memória, todas as etapas da vida da família. Desde a humilde residência, na periferia da cidade, até Mineirinho realizar seu maior sonho. Luzimar contou como era a vida há mais de 20 anos e os esforços feitos para criar os filhos. “O pai (Jonas) trabalhava como era estivador. Quando saiu do emprego, nós compramos um barraco no Santo Antônio com um barzinho. Foi ali que sustentamos nossos dois filhos”.

A mãe de Adriano revelou que, naquele tempo, o campeão descobriu o esporte que mudaria sua vida. O irmão de Mineirinho, Angelo, o apresentou ao surfe, comprando sua primeira prancha, que custou R$ 30.

Não foi fácil efetuar a compra. “As condições eram muito difíceis. Nós morávamos na favela, e não tínhamos tantos recursos. Ele apareceu com essa prancha para comprar e, como estava interessado e se desenvolvendo no surfe, decidimos fazer o sacrifício. Fez falta, mas valeu a pena”, afirmou Angelo.

Emoção não faltou durante o último dia da etapa derradeira do circuito. Assim que a disputa terminou, e Adriano ergueu a taça mais cobiçada do surfe, Luzimar, que tem medo de ver o filho sobre grandes ondas, explodiu. “Sempre acreditei que o dia dele chegaria. Poderia demorar, mas chegaria. E chegou, graças a Deus”.

A taça veio após dez anos no mundial. Angelo declarou que, em alguns momentos, Mineirinho desanimou. No entanto, a persistência lhe permitiu viver o que sempre sonhou.

“Quando surgem derrotas, o mau resultado, bate um desânimo. Mas, a gente estava incentivando, dizendo que tinha talento, foco e determinação. Ele sempre acreditou e lutou por isso”, disse o irmão.

Angelo deu muita força para que o vencedor atingisse sua meta de vida. Para ele, desde a adolescência, Mineirinho mostrava que poderia bater feras como Kelly Slater. “Ele despontou aos 16 ou 17 anos, quando foi campeão mundial júnior. Então, já dava a sensação de que ia conseguir o título”.

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ANÁLISE: Título sintetiza a garra do povo brasileiro, diz Carlos Burle

Surfista de ondas grandes comenta conquista de Mineirinho

O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2015 | 07h00

O Brasil nunca tinha sido campeão mundial antes do Gabriel Medina, e isso era uma barreira muito grande. O Mineirinho sempre se esforçou, mas o surfista brasileiro era encarado como alguém que não tinha qualidade para ser campeão. Quando Mineirinho entrou no Circuito em 2006, ele era visto dessa maneira.

Era como se enxergassem qualidade nele, mas, mesmo com todo talento, não seria páreo para Kelly Slater, que conquistou quatro títulos desde que Mineirinho entrou na elite do surf. Já o Mick Fanning ganhou três.

No começo, Mineirinho construiu a imagem do brasileiro chato no Circuito. Era um cara que incomodava os outros, mas carregava o estigma do surfista brasileiro, que não aceitava muito bem os critérios subjetivos de pontuação.

O Mineirinho sempre soube que tinha capacidade para ser campeão mundial. Passou a ser exemplo para a nova geração de surfistas do País, um líder do que se chama hoje de Brazilian Storm. São garotos com um nível de surfe mais refinado, que passaram a colocar pressão em cima dos adversários.

Medina foi a gota que rompeu a represa ao conquistar o título mundial no ano passado. Mas não podemos nos esquecer que o Mineirinho foi muito importante para esse processo.

Contra Slater e Fanning no auge, ele vinha construindo esse título há vários anos. É um cara que lutou desde que subiu na prancha pela primeira vez até ser coroado no Havaí. Valeu o esforço, valeu a torcida. É um excelente competidor e sintetiza a garra do povo brasileiro.

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