''Minha Copa era a de 2002, mas me arrancaram de lá''

Técnico garante que não pensa mais em seleção e afirma que Flamengo foi planejado para viver momento tão bom

Bruno Lousada e Sílvio Barsetti, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Vanderlei Luxemburgo

RIO

Maior detentor de títulos do Campeonato Brasileiro - venceu a competição duas vezes pelo Palmeiras e ainda por Cruzeiro, Corinthians e Santos -, Vanderlei Luxemburgo voltou à cena graças à campanha do Flamengo na temporada. Em oito meses, obteve com o Rubro-negro 25 vitórias e 15 empates. No ano, o clube registra apenas uma derrota, para o Ceará, pela Copa do Brasil, que acabou lhe custando a eliminação.

Nesta entrevista ao Estado, concedida num hotel da Barra da Tijuca, durante a semana, Luxemburgo fala sobre a grande fase do Flamengo. Trata ainda de seleção brasileira e Ronaldinho Gaúcho e critica quem defende que ele se concentre mais na função de técnico, preocupando-se menos em interferir na gestão do futebol dos clubes por que passa.

Qual o segredo do sucesso do Flamengo?

Planejamento. O Flamengo foi planejado nas contratações, nas dispensas, na reformulação, na filosofia de trabalho da presidente Patricia Amorim.

O Flamengo foi campeão brasileiro em 2009 e o Fluminense, em 2010. O Vasco venceu a Copa do Brasil de 2011. O futebol carioca voltou a ser o mais forte do País?

O futebol carioca passou muito tempo ganhando só de vez em quando, enquanto o futebol paulista se fortaleceu por duas décadas. O Rio não melhorou por questão de estrutura, que ainda deixa muito a desejar. Elevou sim seu poder de mercado, sua capacidade de trazer jogadores, de fazer grandes contratações, com patrocinadores fortes e uma série de receitas diferentes.

Você é o maior vencedor de Brasileiro. Já vislumbra um novo título?

Eu quero ganhar sempre, mas ainda é muito cedo para se falar disso. O Campeonato Brasileiro vai ser definido nas últimas cinco rodadas, como foi no ano passado, com dois ou três clubes sabendo que a derrota ou o empate de um vai abrir o caminho para o outro.

Depois de sete anos, você voltou a despontar num Brasileiro...

Isso não é um privilégio meu. Vocês analisam a competição. Quem consegue ganhar todos os anos campeonatos como a Liga dos Campeões da Europa, quem? O Alex Ferguson está há quase 30 anos no Manchester United e só ganhou esse título duas vezes. Meu último Brasileiro foi em 2004, pelo Santos. Em 2003, ganhei pelo Cruzeiro. Eu poderia ter vencido outro, pelo Palmeiras (em 2009), mas o Belluzzo (Luiz Gonzaga, ex-presidente) mostrou inabilidade muito grande, jogou um Brasileiro fora por vaidade. O time estava pronto para ser campeão.

Desde que fechou, em 2009, o Instituto "Wanderley" Luxemburgo tem sido alvo de ações na Justiça. Como lida com esse novo problema?

Eu só entrei com meu nome na criação do instituto. Os investidores quebraram e, com isso, pararam de injetar dinheiro no instituto. Então, eu usei meus recursos para os alunos terminarem os cursos em andamento e assim receberem o diploma. E eu entrei na Justiça para cobrar dos sócios que eram investidores, para cobrar deles o que não cabia a mim.

Você inventou a expressão "zagueiro-zagueiro" para se referir ao jogador Odvan, que atuou na seleção no final dos anos 90. O que significa isso?

Zagueiro tem que ser zagueiro, não pode errar, não pode fazer uma "domingada", tentar driblar, por exemplo. Quem tem que driblar é atacante.

Há os que apostam que você chegaria mais longe apenas como técnico-técnico, limitando-se à sua função, em vez de interferir na gestão do futebol do clube...

Isso é uma grande bobagem. Onde é que eu perco o foco? Vocês criam essas coisas, isso se massifica, vira rótulo e acabou. Ah, o Vanderlei está desfocado. Desfocado como? Ganhei nove campeonatos seguidos, perdi um, aí estou desfocado? Jornalistas podem falar em site, escrever em jornal, ter programa de rádio e TV. Vocês são o suprassumo, eu sou o "supramerda". Isso é falta de respeito. Por que eu não posso? Só tive um ano ruim, ano passado, no Atlético-MG. São 22 anos de carreira top, de primeira linha. Agora, ninguém consegue ganhar todos os campeonatos. Sou um ser humano.

Ainda tem esperança de que Ronaldinho Gaúcho volte a ser aquele craque do Mundial de 2002?

Ronaldinho está com 31 anos. Não podem querer vê-lo achando que tem 26, 27 ou 20 anos. Todo mundo criticou quando eu não o escalei como meio-campo. Hoje, a dinâmica de jogo é diferente. Se ele joga na frente, vai usar o talento em beneficio da equipe. O que adianta botá-lo para correr no meio?

Há espaço para Ronaldinho na seleção?

A seleção tem que encontrar uma liderança, um jogador para quem as pessoas olhem e digam: "Olha ali, aquele é o cara."

Existe esse jogador?

Não sei se tem, há um hiato. Quando o Ronaldo parou, já tinha de ter outro nome. Poderia até ter sido o Ronaldinho, o Robinho ou o Kaká. Mas ficou uma lacuna, não preenchida.

Jogador em balada quase sempre é notícia. Como você administra isso no Flamengo?

A discussão é sobre o limite de todos os setores. O jogador tem de ter limite quando ele vai à balada, tem de saber até quando pode ficar. O torcedor também tem de ter o limite do respeito e a imprensa, o limite do direito de liberdade. No Flamengo, os jogadores sabem disso, até porque são cobrados.

Desde que deixou a seleção em 2000 seu nome esteve cotado para voltar à equipe pelo menos duas vezes? Ainda vive essa expectativa?

Não. Minha Copa era a de 2002, com tudo preparado. Mas me arrancaram de lá. Eu estava no lugar certo na hora errada. O time estava pronto para ser campeão no Japão. Tanto que 19 jogadores daquela seleção foram jogadores que eu preparei, reformulando, montando time, viajando, acumulando seleção olímpica e principal.

Qual a principal dificuldade no trabalho de Mano Menezes?

É a maturação do grupo. Passou por dificuldade na Copa América e precisa passar por muito mais. O último jogo do Brasil nas Eliminatórias de 94 foi no Maracanã, contra o Uruguai. Se não ganhasse ali, não seguia para o Mundial. Quando ganhou, eu disse: "Vai ser campeão". Superou a dificuldade. Essas coisas amadurecem muito. E agora o Brasil não vai passar muito por isso. O grupo é jovem. "Ah, mas o Neymar ganhou a Libertadores." Ok, mas foi pelo Santos. Na seleção é diferente.

CARREIRA

Recordista de títulos no Brasileiro

Luxemburgo conquistou cinco vezes o campeonato nacional por quatro clubes diferentes. Com a unificação dos títulos pela CBF, ele ficaria empatado com Lula, técnico do Santos, que faturou também cinco taças, todos com o time de pelo Pelé: em 1961, 62, 63, 64 e 65. Muricy Ramalho e Minelli foram campeões quatro vezes cada um.

1993 e 1994

Bicampeão no Palmeiras

1998

Campeão no Corinthians

2003

Campeão no Cruzeiro

2004

Campeão no Santos

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