''Minha mãe vendeu a casa para pagar a viagem''

Bernard nasceu em Guiné Bissau. Viajou para Gana, Senegal, passou por Tenerife até chegar à França, onde o esperariam para ser jogador de futebol. Em sua terra natal, era considerado craque e a promessa de transformar a vida de toda uma família, lutando para sobreviver na região mais pobre e violenta do planeta. Bernard, hoje com 19 anos, havia recebido em 2008 uma promessa de um suposto agente de que teria um teste marcado no time francês do Metz. Para chegar à Europa, cruzou o Atlântico em um barco, correndo risco ao lado de dezenas de outros imigrantes ilegais.

, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Pela viagem, passaporte e serviço, pagou US$ 3 mil ao agente. Na África, o valor é altíssimo. "Minha mãe vendeu nossa casa para pagar o que nos foi pedido", contou Bernard, que falou ao Estado com a condição de não ter o sobrenome divulgado e não ser fotografado. Tudo não passava de fraude. Ao chegar a Tenerife, o barco foi detido pela polícia espanhola. Todos foram parar em uma detenção. Não tinham visto. Com identidade falsa, convenceu os agentes espanhóis de que era maior de idade. Foi liberado após um mês na prisão.

Decidiu continuar seu caminho até a França para o sonhado teste no Metz. Quando finalmente desembarcou na cidade, a direção do clube lhe disse que nunca havia chamado o garoto para treinar e que desconhecia o agente. Pior. Ameaçaram denunciá-lo à polícia se insistisse. O falso agente desapareceu. Hoje Bernard vive ao lado de centenas de imigrantes ilegais na periferia de Paris, onde nem a polícia costuma fazer visitas. Divide quarto com quatro africanos. Para sobreviver, tem a ajuda da ONG Foot Solidaire. E trabalha como camelô. "Não posso voltar para casa. Seria um vexame para minha família."

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