Missão cumprida

Como nasci em 1970, só me lembro de ouvir falar de Pelé e ver alguns lances quando estava no Cosmos (1975-77). Conheceria sua carreira por videoteipes apenas. Isso, claro, nunca me impediu de considerá-lo o maior jogador de todos os tempos, depois de estudar as imagens e as estatísticas. Mais tarde, já me dando por gente, admirei três fascinantes camisas 10 da mesma geração: Maradona, Zico e Platini, na ordem de preferência. Dos dois primeiros, não perdia nenhum jogo. Muitos brasileiros se ressentem de Maradona ser considerado o segundo melhor de todos os tempos, mas Zico é o primeiro a afirmar isso e estou com ele. Também fui fã de Sócrates e Falcão. Pouco depois, o encantamento foi com o Milan de Van Basten, que, ao lado de Careca, deu início à era dos centroavantes habilidosos.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2011 | 00h00

No Brasil, houve uma entressafra até que surgiu Romário, principal e não único responsável pelo título de 1994. Ele e Baggio davam gosto de ver. Escrevi que cada gol de Romário era um hai kai de um caiçara zen, um prodígio de simplicidade estilística. No ano seguinte, mudei de apartamento e o prédio tinha uma TV a cabo que transmitia o campeonato holandês. Foi então que vi que aquele menino Ronaldo, que já chamara atenção no Cruzeiro, estava se tornando um fora de série. Era veloz e letal como Romário, fazia um gol por jogo e, ainda por cima, estava alto, forte e unia aos arranques os dribles com as duas pernas, como a pedalada, que lhe permitiam driblar dois ou três zagueiros com frequência inacreditável.

Assim, quando chegou ao Barcelona em 1996, antes de completar 20 anos, o que fez não me espantou tanto quanto à maioria das pessoas, inclusive "especialistas", que naquela época acompanhavam menos ainda os campeonatos estrangeiros. Naquele ano e no seguinte, na Inter de Milão, foi um jogador extraordinário, o mais próximo que vi de Pelé e Maradona. Seu estilo era parecido com o de Pelé, objetivo e bonito ao mesmo tempo, embora Pelé fosse superior em visão de jogo e cabeceio. A bola chegava a Ronaldo e o estádio se eletrizava; mesmo longe do gol, criava a sensação de que ia disparar como um relâmpago, um ziguezague luminoso, e assim fazia, encontrando caminhos surpreendentes. Seus arranques ficaram famosos, mas quem entende do riscado sabe que ali não havia apenas rapidez; havia inteligência. Os grandes espaços se encurtavam, os pequenos se ampliavam e, onde os outros viam vazios e borrões, ele figurava o gol.

A ironia, que não poupa nem os talentosos, foi que Ronaldo passou a sofrer com o oposto do que representava. O jogador das grandes decisões teve uma convulsão dormindo antes da final de 1998. Os joelhos que sambavam em velocidade explodiram como elásticos. E a recuperação desses acidentes exigiu constantes retrabalhos da musculatura que levaram a novas lesões. Mesmo assim, ele cumpriu sua missão em 2002, com oito gols em sete jogos, principal e não único responsável pelo título. Os três melhores jogadores de sua geração, por sinal, foram: 1) Ronaldo de 1996 a 1998; 2) Zidane; e 3) Ronaldo de 2002 a 2004. Dizendo de outra maneira, eles foram o maior centroavante e o maior meio-campista de 1996 a 2004.

Ronaldo foi sempre acusado de ser "fenômeno de marketing", mas nunca deixou de corresponder em campo, mesmo depois dos problemas de peso, a partir de 2005. Jogou apenas em clubes grandes, nunca foi reserva e lutou contra os problemas - dos quais foi mais vítima que criador - como raros lutariam. Em dois anos de Corinthians, ganhou dois títulos e fez 35 gols em 69 jogos. Os chatos, para variar, dizem que o final de sua carreira a teria "manchado", mas olhe os últimos números de Zico, de Romário, de Pelé... O que fica é o que se fez de melhor, e o que Ronaldo fez o põe entre os dez maiores jogadores brasileiros da história e os vinte maiores do mundo. Calem-se os maledicentes; imprima-se a história.

P.S. Reuni em meu blog (blogs.estadao.com.br/daniel-piza) quase trinta dessas frases ditas contra Ronaldo de 1997 a 2009. E apenas três vídeos que, para dizer o mínimo, as lançam para a lata de lixo.

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