Mito, forte no exterior, está em declínio na Argentina

Segundo sociólogo, as crianças de hoje falam de Messi. 'O entusiasmo com Maradona dilui-se com o tempo'

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

"Três mitos argentinos - Evita Perón, Carlos Gardel e Che Guevara - foram favorecidos pela morte quando eram jovens. Se Diego Armando Maradona morresse amanhã, haveria pessoas rezando nas ruas e um mega-funeral. No entanto, quanto mais o tempo passa, o mito de Maradona diminui. As crianças de hoje em dia falam de Lionel Messi, não falam sobre o Maradona. O entusiasmo com Maradona dilui-se com o tempo." A frase é do sociólogo Juan José Sebreli, que disse ao Estado que o ex-astro do futebol é mais idolatrado fora da Argentina, em países como na Itália, do que entre seus conterrâneos.

A imagem de Maradona como mito começou a ter problemas desde que teve overdoses em 2000 e 2004. Quando foi designado técnico em 2008, as pesquisas indicavam que 65% dos argentinos não queriam "El Diez" no cargo. Em novembro passado, depois da suada classificação para a Copa da África, as pesquisas indicavam que 90% dos torcedores queriam a saída de Maradona. Quando Maradona foi removido da seleção, 85% da opinião pública concordou. Há mais de um mês, quando ele expressou seu desejo de voltar à seleção, a rejeição foi de 90%.

O analista esportivo Ezequiel Fernández Moores afirmou ao Estado que no exterior "existe uma imagem errônea de que Maradona é um ídolo intocável. É uma mentira. Ele recebeu e recebe críticas de todos os lados". Segundo ele, "como jogador, as pessoas estão agradecidas pelas alegrias que ele deu. Mas, como técnico, ele entrou em um mundo novo, onde não fascina a torcida. Ele deixou de ser um semideus e passou a ser humano. E, talvez isso seja algo positivo para ele."

Sebreli acha que o "Maradona-jogador" é o símbolo da "esperteza argentina", pois "o gol mais famoso do futebol argentino é o que ele fez com a mão contra a Inglaterra na Copa do México. Embora seja um gol de trapaça é o gol mais idolatrado pela população. Esta é uma sociedade que acredita que a lei existe para ser violada...".

Na mesma sintonia, o analista Rosendo Fraga afirmou ao Estado que "a Argentina é Maradona e (Jorge Luis) Borges ao mesmo tempo. O segundo é o escritor de cultura mais universal da América Latina, enquanto que o primeiro é o ídolo popular amoral. E, talvez por este motivo, a Argentina seja o país mais ambíguo, complexo e contraditório da América Latina".

Segundo Fernández Moores: "Maradona tem a capacidade de ressuscitar sempre. Há cinco anos estava à beira da morte, após as overdoses de cocaína. E ele foi encontrar-se com o então presidente Néstor Kirchner. Ninguém achava que Maradona duraria muito tempo. No entanto, quem morreu foi Kirchner. Maradona foi a seu velório. É uma imagem forte! Quantas vidas tem Maradona?" No entanto, Moores considera que os altos e baixos de Maradona, que o levam quase sempre às portas da morte, tem custos: "Não deve ser fácil estar morrendo para depois sempre ressuscitar. Todo ser humano é imprevisível. Mas Maradona é mais imprevisível ainda."

A clássica disputa sobre os mitos do futebol Pelé e Maradona é analisada por Moores. "É como dizia Oscar Wilde: eu não comparo os gênios... eu os desfruto!''.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.