DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
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Facebook, Microsoft e Amazon trabalham para ter games em nuvem: isso muda a forma de jogar

Empresas estão aumentando ofertas em uma plataforma que permite jogar videogames de alta qualidade em qualquer dispositivo, livres de seus computadores e consoles

Kellen Browning, The New York Times

08 de julho de 2021 | 15h00

Imagine jogadores de videogames livres de seus computadores e consoles, jogando versões nítidas de seus games favoritos em qualquer lugar. Eles podem percorrer o mundo futurista do jogo de tiro Halo em seus celulares enquanto estão no metrô ou tirar a poeira de velhos MacBooks e pular direto na selva do jogo de arena de batalha League of Legends. Esse é o futuro otimista prometido pelos jogos em nuvem, uma tecnologia em desenvolvimento que pode mudar a forma como as pessoas jogam. E, dependendo para quem você perguntar, esse futuro já pode ser realidade.

Na quinta-feira, o Facebook anunciou que havia expandido o alcance de sua plataforma de jogos em nuvem, lançada no outono passado, para cobrir 98% do território continental dos Estados Unidos. Também na semana passada, a Microsoft disponibilizou seu serviço de jogos em nuvem para mais dispositivos. E a Amazon ampliou o acesso ao seu crescente serviço em nuvem, dando aos assinantes do Prime uma versão de avaliação gratuita durante o Prime Day no mês passado.

Tem sido um período movimentado para a pequena, mas crescente indústria de jogos em nuvem, cuja receita deve ultrapassar US$ 1 bilhão e 23 milhões de clientes pagantes até o fim do ano, de acordo com a Newzoo, uma empresa de análise do mercado de jogos. A receita está projetada para crescer para mais de US$ 5 bilhões até 2023, conforme a tecnologia for aprimorada. “Depois de anos de desenvolvimento, agora é um momento crucial para os jogos em nuvem ganharem destaque”, disse Rupantar Guha, analista de jogos da empresa de análise GlobalData.

Os jogos em nuvem são, em sua essência, a capacidade de separar a capacidade técnica exigida para jogar um videogame do dispositivo em que está sendo jogado. Isso é feito ao se usar centros de dados remotos, que aproveitam o poder de processamento de uma empresa e transmitem um jogo diretamente para o dispositivo de um usuário.

Isso significa que os jogos não estarão mais limitados a plataformas ou dispositivos específicos; então o Halo poderia ser jogado não apenas em um Xbox, mas em um celular ou transmitido diretamente para uma televisão. E alguém poderia usar o poder da nuvem para jogar um jogo de alta qualidade e bastante pesado em um dispositivo mais antigo ou mais fraco.

Isso poderia fazer com que as pessoas gastassem menos tempo e dinheiro com videogames caros da Microsoft, Sony e Nintendo e virassem as costas para computadores gamers de preço elevado. Elas poderiam, teoricamente, jogar novos games instantaneamente em qualquer dispositivo e em qualquer lugar. Na teoria, parece ótimo. Mas os jogos em nuvem, que ainda estão em fase experimental, às vezes são prejudicados por falhas que frustram os usuários. E tudo isso exige uma forte conexão de internet.

Os jogos em nuvem também podem abalar a supremacia que a Sony, a Microsoft e outras fabricantes de hardware têm aproveitado com os videogames. Em vez disso, gigantes da tecnologia como o Google e a Amazon estão avançando e "veem isso como uma oportunidade inovadora para entrar no mercado global de jogos", disse Guilherme Fernandes, especialista em jogos em nuvem da Newzoo. O caminho não tem sido fácil.

“As gigantes da tecnologia têm um senso de arrogância de que elas podem assumir o controle de um segmento da indústria e interrompê-lo completamente”, disse Joost van Dreunen, professor da Universidade Nova York que estuda o setor de videogames. “Até agora, no mundo dos games, todas elas são péssimas nisso.”

O Google foi a primeira gigante da tecnologia no mercado dos jogos em nuvem, lançando a assinatura de seu serviço Stadia em novembro de 2019. Por uma mensalidade de US$ 10, assinantes podiam ter acesso a uma biblioteca inicial de 22 jogos que poderiam ser jogados em seus telefones, navegadores Chrome ou em televisores com um controle. As pessoas que preferiam usar a versão gratuita do Stadia podiam comprar jogos individualmente.

O serviço foi imediatamente criticado pelo fraco desempenho e pela escassez de jogos. Jack Buser, diretor de jogos do Stadia, disse que o serviço se estabilizou com o tempo e agora conta com mais de 180 títulos. “Não houve um novo concorrente importante no setor de jogos em 20 anos”, disse Buser. “Isso nos dá a vantagem de fazer algo diferente nesta indústria e levá-la adiante de uma maneira que os consoles não são capazes.”

Desde então, o Stadia passou por outros altos e baixos. Enquanto o jogo de sucesso Cyberpunk 2077, lançado em dezembro, virou uma bagunça cheia de erros em muitos consoles mais antigos, os usuários relataram uma experiência tranquila usando o Stadia. Mas em fevereiro, o Google anunciou que iria parar de desenvolver seus próprios jogos exclusivos para o Stadia, e a principal desenvolvedora de jogos do serviço, Jade Raymond, deixou a empresa. Jade não quis se pronunciar a respeito das mudanças acontecidas em fevereiro.

A Amazon também lançou um serviço em nuvem, o Luna, em setembro. Até o momento, ele está disponível apenas para convidados, que pagam US$ 6 por mês para jogar os 85 jogos da plataforma. Os jogos podem ser transmitidos da nuvem para os celulares, computadores e para o Fire TV da Amazon.

Assim como o Google, a Amazon tem tido dificuldades para construir uma vasta biblioteca de jogos que atraiam o interesse do público, embora ofereça jogos da editora francesa Ubisoft por uma taxa adicional. A Amazon também teve problemas ao desenvolver seus próprios jogos, o que van Dreunen disse ter mostrado que o talento inovador necessário para fazer jogos interessantes estava em conflito com o estilo mais corporativo das gigantes da tecnologia.

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Elas podem ter uma interessante solução tecnológica, mas ela carece totalmente de personalidade
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Just van Dreunen, professor da Universidade Nova York

A Amazon disse que continuava empenhada no desenvolvimento de games: ela abriu um estúdio de jogos em Montreal em março e, depois de uma longa espera, está lançando um jogo chamado “New World” no verão do hemisfério norte. Até mesmo os fabricantes de consoles estão se jogando no mundo dos jogos em nuvem. A Microsoft, que fabrica o console Xbox, lançou uma oferta em nuvem, o xCloud ou Xbox Cloud Gaming, no outono passado. Por uma assinatura mensal de US$ 15, os usuários podem jogar mais de 200 jogos em vários dispositivos.

A Sony também tem um serviço de jogos em nuvem, o PlayStation Now, que permite transmitir jogos para consoles PlayStation e computadores. Satya Nadella, CEO da Microsoft, disse em entrevista no mês passado que não achava possível ser uma empresa de jogos “com qualquer nível de grande ambição” sem oferecer jogos em nuvem. A Sony não quis se pronunciar.

Outras empresas também têm entrado no mercado. A Nvidia, fabricante de chips que produz hardware para jogos, tem um programa na nuvem que custa US$10 por mês, o GeForce Now. Phil Eisler, vice-presidente da Nvidia que está à frente do GeForce Now, disse que o serviço ainda não era tão rápido quanto um poderoso computador desenvolvido para jogos. “Achamos que esse é o futuro”, afirmou. Mas "não sabemos exatamente quando o futuro será realidade em termos de todos mudarem [para os jogos em nuvem]."

O Facebook também está de olho no setor. Mas, ao contrário de outras empresas, ele fugiu do serviço de assinatura e se concentrou em desenvolver jogos que fossem carregados instantaneamente no aplicativo e no site do Facebook. Dessa forma, as pessoas podem passar mais tempo na plataforma da rede social. A página usou tecnologia de nuvem para testar uma reviravolta no mundo dos videogames: de dezembro a março, ele hospedou um tipo de jogo de realidade interativa, o Rival Peak, onde o público podia votar em como os personagens deveriam agir e interagir.

Vivek Sharma, vice-diretor do Facebook Gaming, disse que os jogos em nuvem tornavam mais fácil para as pessoas entrar imediatamente em jogos com seus amigos do Facebook.  “O objetivo principal da nuvem é: ‘Cara, vamos relaxar agora!’”, disse Sharma. “Se as coisas forem fáceis, simples e rápidas, as pessoas vão se interessar.”

Muitos dos programas em nuvem não estão disponíveis tão facilmente porque a Apple basicamente barrou eles de sua App Store. A Apple, que proíbe aplicativos que oferecem uma biblioteca de jogos, não quis comentar a questão. Elijah Dolosa, jogador profissional de videogame da equipe americana de esportes eletrônicos XSET, experimentou o serviço GeForce Now da Nvidia e disse que estava "animado e otimista" em relação aos jogos em nuvem.

Outros jogadores foram mais cautelosos. Patrick Riley de Cincinnati, que testou o Stadia, o xCloud e o Luna, disse que as falhas técnicas fariam com que muitas pessoas evitassem aderir aos jogos em nuvem por mais alguns anos. “Até tentei, mas, para mim, nenhum desses serviços se mostrou bom para se jogar neste momento”, disse. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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