Mônaco, ilusão

Independentemente do que acontecer amanhã na classificação para definir o grid, o fato de Alonso ter feito o melhor tempo no primeiro treino de Mônaco já é o suficiente para Luca di Montezemolo considerar-se, uma vez mais, o salvador da pátria ferrarista. Mas é claro que a demissão do diretor técnico Aldo Costa não é mais do que uma primeira cabeça a rolar, das que fazem parte de uma equipe de projetistas que há algum tempo não consegue criar um bom carro.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

No ano passado, a Ferrari reagiu no segundo semestre graças a algumas atuações brilhantes de Alonso e um descuido da Red Bull no trabalho de administrar a disputa interna entre Vettel e Webber. Mas durante o ano todo a equipe italiana não apresentou uma única inovação que chamasse a atenção das rivais, como fizeram McLaren e Red Bull. Mesmo assim, Alonso chegou à última etapa disputando o título, depois de ganhar cinco corridas, sendo quatro "no braço" e uma no rádio.

Costa era apenas uma peça do conjunto. Engenheiro graduado na Universidade de Bolonha, em 95 realizou seu sonho de vida ao vir trabalhar na empresa que ele aprendeu a amar desde criança como assistente do sul-africano Rory Byrne, este um raro caso de autodidata responsável pela criação de todos os carros da época mais vitoriosa da história da Ferrari. Na aposentadoria de Byrne, Aldo Costa acabou promovido a diretor técnico, enquanto o grego Nikolas Tombazis assumia a chefia de desenho. No fim do ano passado foi contratado Pat Fry, da McLaren. Deles nasceu o carro atual, embora Pat Fry não tenha participado da concepção.

Era de se esperar que, com as correções feitas ao longo do último campeonato, aquele carro que terminou o ano lutando pelo título servisse de base para o modelo de 2011, levando-se em conta principalmente a mudança dos pneus, coincidentemente agora também italianos. Até a pré-temporada parecia tudo bem. Mas alcançar o primeiro pódio apenas no quinto GP do ano, fazer os pit stops mais longos entre as equipes fortes e tomar uma volta dos quatro primeiros colocados no domingo passado em Barcelona configuram o que a imprensa italiana chamou de um desastre. Aliás, só comparável a alguns dos piores momentos da Ferrari quando ficou 21 anos sem ganhar um título. A tal reestruturação técnica se tornou essencial. Mas eu acho que ela está só começando.

O repentino bom rendimento do carro em Mônaco se explica por duas razões: a primeira é que a pista não exige uma eficiência aerodinâmica, que é exatamente aquilo que o carro da Ferrari não tem; e a segunda é que a Pirelli só trouxe para cá os pneus macios e super-macios, que grudam os carros na pista, com ou sem boa aerodinâmica. Portanto, um fenômeno que pode se repetir no Canadá, em Valência e, eventualmente, na Hungria. Mas o campeonato é disputado em circuitos com curvas muito mais velozes do que estas das ruas de Mônaco. E o carro da Ferrari foi mal concebido aerodinamicamente, até porque o túnel de vento de Maranello andou descalibrado, a ponto de os engenheiros terem de usar o da Toyota, na Alemanha. Este é o erro mais comprometedor e não teve apenas um culpado.

Pelo menos neste fim de semana, a Ferrari pode dar alguma alegria à sua torcida. Vencer em Mônaco é algo que mexe com a cabeça de qualquer piloto. Tem um valor só menor que a conquista do título. Dos que estão aqui no grid, seis já venceram este GP: Schumacher, Alonso, Hamilton, Trulli, Button e Webber. Uma honra que 13 campeões mundiais não conseguiram sentir, inclusive Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet. Em 73 faltou uma volta para Emerson conseguir passar Stewart. Em 81 Piquet liderou a corrida toda e foi tirado pelo retardatário Tambay (Theodore), quando faltavam 5 voltas para o final. Ayrton Senna é o único brasileiro a vencer em Mônaco e ninguém venceu tanto quanto ele - 6 vezes. Rubinho chegou em 2.º quatro vezes; Piquet, duas; Emerson e Massa, uma. Para Sebastian Vettel, o cara do momento, também está faltando uma vitória em Mônaco.

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