Satiro Sodre/ SSPress
Satiro Sodre/ SSPress

Montada por Coaracy, 'comissão de atletas' elege Thiago Pereira e causa polêmica

Voto do nadador poderá ser o de Minerva para decidir se o grupo continuará no comando da entidade

Demétrio Vecchioli, Estadao Conteudo

16 Fevereiro 2017 | 15h22

A montagem da Comissão de Atletas da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), feita à toque de caixa nos últimos dias, vem causando polêmica entre os nadadores. O próprio presidente da CBDA, Coaracy Nunes, foi quem escolheu os cinco membros do colegiado, que terá direito a voto na eleição que definirá seu sucessor e votará suas contas. A assembleia geral, marcada para 18 de março, só foi convocada na última quarta-feira, logo após Thiago Pereira ser eleito presidente da comissão de atletas.

Até segunda-feira essa comissão inexistia. Naquele dia, um boletim assinado por Coaracy indicou os representantes dos atletas de cinco modalidades, sem que os próprios esportistas pudessem votar. Nas maratonas aquáticas, a indicada foi Virginia Pedrosa, da categoria master.

Ana Marcela treinava em Santos (SP) quando recebeu uma ligação de Coaracy convidando-a para ser a representante da modalidade. Aceitou e foi até um cartório, registrou uma procuração em nome de Christiane Fanzeres, coordenadora da CBDA, e enviou-a por e-mail. Uma boletim de ratificação trocou o nome de Virginia pelo de Ana Marcela.

À tarde, na sede da entidade, no Rio, Christiane e os demais quatro atletas escolhidos por Coaracy indicaram Thiago Pereira como presidente da comissão, tendo Hugo Parisi, dos saltos ornamentais, como vice. O voto de Thiago poderá ser o de Minerva para decidir se o grupo de Coaracy continuará no comando da entidade. Além do representante dos atletas, 27 federações têm direito a voto.

A impossibilidade de apontar seu representante na eleição da CBDA incomodou alguns nadadores. Crítica à atual gestão da entidade, Joanna Maranhão, por exemplo, diz que vai recorrer à Justiça. Ela seria uma candidata natural se houvesse uma eleição para comissão de atletas.

"Ninguém teve conhecimento de como esses nomes foram escolhidos. A gente precisa pensar no melhor da natação. Estou vendo o que pode ser feito no âmbito jurídico, estou fazendo o que posso", diz ela. Outros atletas também incomodados não quiseram comentar com a reportagem do Estado. Thiago é um líder natural dos nadadores, chamado até de "presidente" por alguns deles, e vice-presidente da Comissão de Atletas da Federação Internacional, a Fina.

Joanna diz que não partiu dela comunicado que circula entre os nadadores que pede que eles escrevam uma carta em que afirmem que "não foram consultados ou tiveram ciência através de edital ou outro meio acerca da criação de comissão de atletas no âmbito da CBDA". O comunicado diz que essas cartas serão anexadas "a um processo que visa derrubar a Comissão dos Atletas da CBDA".

Para o advogado da CBDA, Marcelo Franklin, o estatuto da entidade é claro ao apontar, em seu artigo 54º, que a indicação dos representantes dos atletas será feita pelo presidente da CBDA - no caso, Coaracy. "Essa é a regra estatutária. Isso que foi combinado por todos", argumenta.

Na Lei Pelé, o artigo 23 diz que "os representantes dos atletas (em órgãos e conselhos técnicos) deverão ser escolhidos pelo voto destes, em eleição direta", mas não detalha a exigência de votação direta para definir os representantes dos atletas na assembleia geral.

Além de Thiago, Ana Marcela e Hugo, Coaracy indicou João Felipe Coelho, jogador de polo aquático que não tem servido à seleção, e Maria Clara Lobo, do nado sincronizado. Ela é neta de Ana Maria Lobo, ex-diretora da entidade e árbitra internacional. "Aceitei essa indicação para tentar mostrar o interesse dos atletas e não para compactuar com eleição nenhuma", diz a atleta do Flamengo. Ela foi preterida no duelo olímpico por Luísa Borges, neta de Coaracy.

CHAPAS

A eleição da CBDA, marcada para 18 de março, tem duas chapas concorrendo à presidência. Uma, encabeçada por Miguel Cagnoni, ex-presidente da Federação Aquática Paulista (FAP), de oposição. O grupo que comanda a CBDA apostava em Ricardo de Moura, atual superintendente executivo, mas o nome dele apareceu ligado a diversas denúncias recentemente. Assim, o candidato apresentado pela situação é Sérgio Silva, presidente da Federação Baiana.

Em nota, Ana Marcela disse que aceitou o convite por "ser uma oportunidade de poder ouvir os atletas, suas críticas, reivindicações, no intuito de servir de elo de ligação dos atletas com os órgãos oficiais, visando a melhoria da modalidade".

Já Thiago Pereira, também via assessoria de imprensa, argumentou que é reconhecido como "um porta voz do esporte" e lembrou que também no COB foi indicado pela presidência para ser membro da comissão de atletas. "Senão mais, ao menos igualmente importante, tenho muito orgulho de ter também o reconhecimento dos meus colegas esportistas, já que por votação deles fui eleito membro da comissão de atletas da Odepa. Em todas essas comissões eu represento a nossa modalidade e nós, atletas. A nossa visão é essencial para que o esporte evolua e acredito que temos muito a acrescentar e ajudar a desenvolver na natação e no esporte brasileiro", continuou. Ele não respondeu se pretende ouvir os nadadores antes de decidir seu voto na eleição da CBDA.

Mais conteúdo sobre:
nataçãoThiago Pereira

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.