Morumbi: crônica de um veto anunciado

Se a razão do veto é a falta de garantias, não seria o caso de pedir que a CBF apresentasse as garantias oferecidas pelos outros 11 estádios ou cidades escolhidas para 2014?

Elena Landau, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

O veto ao Morumbi não pegou ninguém de surpresa. Todo mundo já esperava. O importante é que o representante da FIFA admitiu que o veto partiu da CBF e não da entidade internacional. Se a razão do veto é a falta de garantias, não seria o caso de pedir que a CBF apresentasse as garantias oferecidas pelos outros 11 estádios ou cidades escolhidas para receber os jogos de 2014?

Na realidade, todo o projeto para a Copa no Brasil é um equívoco. São cidades demais e locais onde jamais se sustentará um projeto financiado apenas com recursos privados. É de novo o meu, o seu e o nosso para viabilizar projetos sem retorno social permanente.

Tem muito brasileiro torcendo para o Brasil perder a sede dos jogos para ver se algo muda nesse País. Também ouvi muito brasileiro torcendo contra a nossa seleção na Copa por conta do Dunga. Esses brasileiros precisam voltar suas baterias contra a forma de administrar nosso futebol da CBF. Essa se diz uma entidade privada, e por isso acha que não deve satisfação a ninguém. Mas sobrevive vendendo aos patrocinadores um lugar na nossa camisa, lugar nos nossos corações. Se a confederação arrecada R$ 100 milhões por ano em patrocínio, é por nossa causa, o produto que é comercializado não é da CBF, mas pertence a todos nós.

A camisa canarinho vale porque nós a valorizamos, porque o mundo ainda tem a lembrança do futebol-arte brasileiro; do menino Pelé na Suécia; da melhor seleção de todos os tempos em Guadalajara; dos eternos finalistas aos melhores do mundo: Romário, Rivaldo, Ronaldos e Kaká.

Assim, a CBF também é de todos nós. Também nos deve, se não explicações, respeito. Respeito que não se vê. Foi assim quando largou de lado o comando em 2006 e culpou o técnico, é assim ainda hoje quando não impôs a Dunga o uso de um uniforme digno com nosso lugar no futebol mundial e nem mesmo exige um comportamento no mínimo educado do nosso técnico, embaixador do Brasil no mundo nesse momento. Dunga fez o que quis porque a CBF deixou. E Felipe Melo como titular foi o menor dos problemas.

E na Copa de 2014 será o mesmo, mas em outra escala, porque envolve muito dinheiro, e muitos recursos públicos serão usados no final das contas para viabilizar os estádios que já estão atrasados. Esses projetos vão acabar recebendo de presente, a exemplo dos aeroportos, uma dispensa de licitação, ao invés de uma punição exemplar pelo atraso no início das obras. Afinal, ninguém aceitou fechar o Maracanã enquanto o Flamengo ainda estivesse na disputa pela Libertadores.

Se não viabilizar os projetos rapidamente, o Brasil pode perder a Copa para a Inglaterra. Lá os estádios não são de luxo, com exceção de Wembley. Mas há segurança, conforto e principalmente acesso fácil com transporte público de qualidade. O Brasil deveria mudar seu projeto para 2014. Começando por deixar de fazer política interna na CBF e reduzir o número de cidades a sediar os jogos. Deveria haver a exigência de que os estádios sejam reformados apenas com dinheiro privado e por isso devem estar localizados em regiões onde a média de público nos campeonatos locais demonstra que há viabilidade de financiamento.

Em breve estaremos tendo a mesma discussão em relação à Olimpíada no Rio de Janeiro. Para ver como fazer errado, basta rever o projeto dos Jogos Pan-Americanos realizados há pouco tempo na cidade. Nada poderá ser aproveitado para os Jogos Olímpicos, nem mesmo o parque aquático. O projeto do Engenhão, um belíssimo estádio, ficou pela metade, nem entorno reformado nem acesso público como prometido. Acaso? Erro de planejamento?

Olimpíadas e Copas de futebol são oportunidades únicas para que o Estado invista em infraestrutura de transporte, em segurança e reorganização do espaço urbano, e não para a construção de estádios faraônicos que virarão um fantasma no futuro.

MESTRE EM ECONOMIA E BACHAREL EM DIREITO, FOI DIRETORA DE PRIVATIZAÇÃO DO BNDES

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