Moscou recebe o 'boom' do salto com vara brasileiro

Graças a investimentos, intercâmbios e perseverança de técnicos e atletas, Brasil evolui na prova e levará número recorde de atletas ao Mundial

AMANDA ROMANELLI, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2013 | 09h00

SÃO PAULO - Até o início dos anos 2000, falar sobre os resultados do salto com vara brasileiro se resumia a citar Tomas Hintnaus – e voltar à década de 1980. O atleta, filho de checos e criado nos EUA, nasceu em São Paulo num desvio de rota, o que foi suficiente para que ele defendesse o Brasil em um Mundial, uma Olimpíada, ganhasse um bronze no Pan de Caracas, em 1983, e se tornasse recordista sul-americano.

Mas o cenário de um homem só, em uma prova de reconhecida dificuldade por causa de suas exigências acrobáticas, mudou. No Mundial de Moscou, que começa no dia 10, a seleção brasileira terá, entre seus 32 convocados, cinco atletas do salto com vara. Um aumento expressivo em relação aos últimos três torneios, em que o País conseguiu levar no máximo dois saltadores.

Fabiana Murer, de 32 anos, é o principal nome do time. Em seu quinto mundial, defenderá o ouro conquistado há dois anos, na Coreia do Sul. Com ela, estarão quatro estreantes: Thiago Braz (de 19 anos), Augusto Dutra (de 23), João Gabriel Souza e Karla Rosa, ambos com 28 anos. E, não fosse pelo rompimento do tendão de Aquiles, Fábio Gomes – que disputou os três últimos mundiais –, também estaria na Rússia.

O boom dos saltadores em 2013 não veio por sorte ou acaso, mas pelo necessário investimento em materiais – como varas e colchões –, em períodos de treinos e competições no exterior, bancado por equipes, Comitê Olímpico Brasileiro e Confederação Brasileira de Atletismo.

A estrutura, porém, começou a melhorar após os primeiros resultados aparecerem (notadamente com Fabiana, a partir de 2006), graças aos valiosos ensinamentos do ucraniano Vitaly Petrov, descobridor de Sergey Bubka e ex-técnico de Yelena Isinbayeva, os atuais recordistas mundiais da prova.

Petrov só descobriu a América do Sul graças à persistência de Elson Miranda, da BM&F Bovespa. Ex-saltador, mas sem resultados expressivos, o técnico saiu em busca de uma maneira de saltar. Por conta própria, foi aos EUA e à Europa. No fim, tornou-se pupilo do ucraniano, que visitou São Paulo pela primeira vez em 2001 graças a uma vaquinha.

Em 2006 – cinco anos após o início do intercâmbio com Petrov –, Fabiana bateu seu primeiro recorde sul-americano e venceu a prestigiosa prova de Mônaco. No ano seguinte, foi a vez de Fábio Gomes quebrar a marca que era de Hintnaus havia 22 anos.

Dos cinco classificados, quatro – Fabiana, Karla, Thiago e Augusto – são da BM&F Bovespa, treinam com Miranda e passam períodos regulares com Petrov em Formia, na Itália. João Gabriel, agora atleta do Pinheiros, fazia parte do grupo até 2009. Hoje, é treinado por Henrique Martins (que, ex-saltador, também passou pela dobradinha Miranda-Petrov).

A VEZ DO MASCULINO

O ano de 2006 marca o início dos grandes resultados. Nos últimos sete anos, o Brasil esteve no pódio em quatro mundiais (com três ouros), viu os recordes sul-americanos serem superados e ainda levou o principal circuito de provas da Federação Internacional, a Liga Diamante. "A Fabiana ganhou tudo, menos uma medalha olímpica", diz Miranda, sobre a saltadora que deve ter sua última chance no Rio, em 2016.

Daqui a três anos, porém, os homens é que devem estar no auge, com Augusto Dutra e Thiago Braz. Os dois jovens atletas, que são da mesma cidade (Marília, no interior paulista), despontaram em 2013 com um belo duelo. Afinal, se a infraestrutura e o investimento melhoraram, surgiu outro fator de desenvolvimento: a competitividade interna.

Augusto roubou de Fábio o recorde sul-americano – que era de 5,80 m e subiu um centímetro. Depois, chegou aos 5,82 m. Thiago, que ainda buscava a vaga em Moscou, brigou centímetro a centímetro com João Gabriel. Até que, no Sul-Americano (leia abaixo), saltou 5,83 m e arrebatou a marca continental. "Agora não tem espaço para o comodismo", alerta Thiago.

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