Mou versus Pep

A incrível sequência de quatro superclássicos espanhóis em apenas 18 dias teve um de seus mais importantes capítulos na quarta-feira, no Estádio Mestalla, em Valência, quando o Real Madrid do português José Mourinho (o Mou, como é chamado por aqui) surpreendeu o favorito Barça do catalão Josep Guardiola (o Pep). Barça e Madrid é jogo para não passar em branco, mesmo nos raríssimos períodos em que os dois clubes não têm grande futebol para mostrar - o que evidentemente não é o caso agora. A ancestral rivalidade dos que apoiam o governo central de uma Espanha unificada com aqueles que se identificam com o desejo de maior autonomia da região da Catalunha sempre pairou sobre o superclássico. Esse é um elemento tão presente que mesmo regiões do país cujos clubes, em princípio, não têm relação com o confronto, acabam tomando partido. Os separatistas bascos, quando o assunto é Barça x Madrid, são azuis e grenás desde pequenininhos. Já a população de Valência, cuja imensa maioria gosta da ideia de uma Espanha única e têm rixa com os catalães, torce intensamente pelos merengues.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2011 | 00h00

Na final da Copa do Rei do ano passado, os rivais foram clubes que simbolizam regiões que têm problemas com o governo central: os bascos do Athletic Bilbao, além do próprio Barcelona. Com a bola rolando, cada um apoiou o seu time. Mas, antes do jogo, na hora do hino, mesmo com o rei presente, as torcidas seu uniram para vaiar impiedosamente o hino espanhol. Um episódio para lá de embaraçoso. Para evitar que as vaias dos catalães voltassem a ser ouvidas este ano, o sistema de som do Mestalla executou o hino a nada menos do que ensurdecedores 120 decibéis. Isso, mais o apoio dos torcedores de Madri e Valência, abafou em parte os protestos dos "culés"", torcedores do Barça.

Com tanta rivalidade em jogo, sobrou até para a cantora Shakira, namorada do catalão Piqué, de longe o jogador que mais usa a rivalidade regional para desequilibrar os rivais. "Espanholitos, já ganhamos a vossa liga, agora vamos ganhar a copa de vosso rei"", teria dito o zagueiro aos adversários merengues, ainda no corredor que leva aos vestiários, após o empate de sábado passado, que praticamente garantiu o título espanhol para o Barcelona. "Quero ver você ficar assim engraçadinho quando for convocado para a seleção"", provocou de volta um atleta do Madrid. Ao vazarem imagens de Shakira vestindo um tailleur grená em uma das tribunas, os madridistas cantaram uma música com ofensas impublicáveis à cantora. Acostumada a ser ovacionada nos estádios, ela conheceu um outro lado da história.

No plano tático, Mou levou a melhor sobre Pep. O técnico pragmático que usa todos os subterfúgios para anular equipes com futebol mais vistoso (já deixou de cortar a grama e mandou encurtar em alguns metros o campo do Stamford Bridge, por exemplo, quando comandava o Chelsea) montou o Madrid num esquema que não condiz com a tradição de jogo bonito do clube. Craques refinados como Özil, espécie de Ganso da seleção alemã, foram obrigados a atuar como volantes de contenção. Os que não se adaptaram a um jogo de excessiva marcação, como Kaká, foram parar no banco. Esse Madrid que joga à italiana, com muita força e boas doses de violência, venceu o favorito Barça de lindos toques e floreios, mas que parece ter sentido a contundência do adversário.

O resultado fez com que Mou fosse ainda mais idolatrado pela torcida merengue. Há, no entanto, vozes dissidentes. E vozes de peso, como a de Dom Alfredo Di Stéfano, maior craque da história madridista, que escreveu: "Barça e Madrid se transformou num jogo de gato e rato, no qual o rato é sempre o Madrid"". Mou nem deu bola. Para ele, os fins justificam os meios - e o importante é a taça. Se bem que, talvez por punição dos deuses do futebol, a tal taça caiu das mãos dos jogadores durante as comemorações sobre um ônibus e acabou atropelada pelo dito cujo.

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