Mourinho achou o modelo?

Real Madrid e Barcelona possuem o maior faturamento do futebol europeu e uma rivalidade insana. Embora as instituições aparentemente não combinem em nada, existe um ponto que as aproxima: a gana por vitórias e por um jogo bonito.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2011 | 00h00

Isso mesmo, a arte constitui o ideário dessas duas potências do esporte. Trata-se de um modelo de eficiência merecedor de aplausos.

O treinador italiano Fábio Capello, presente ao Estádio Santiago Bernabéu no sábado, pode contar essa história, pois é uma de suas vítimas, em 1997 e em 2007. Campeão espanhol, seu time sabia vencer, mas não se encaixava no modelo madrilista, coisa de um clube vencedor de 9 copas europeias e de uma vida ao lado de Puskas, Di Stéfano, Zidane...

Ao contratar Cristiano Ronaldo e Kaká, o presidente Florentino Perez acreditava poder lubrificar sua máquina e recuperar os dias de glória. Com dinheiro próprio e crédito na praça, montaria uma equipe fantástica, aprimorada na cartilha do mercado, capitaneada por jogadores talentosos e midiáticos. Plano perfeito para enfrentar o Barcelona, desde que o time fosse conduzido por alguém tão ambicioso quanto o projeto galáctico. O português José Mourinho era o cara.

Mou faz parte de uma rara escola de treinadores de futebol. Graças aos títulos da Uefa Champions League com Porto e Inter, tudo o que faz ou deixa de fazer é medido, analisado e tende a ser copiado, mesmo sem ter nenhum fato relevante para exibir como jogador de futebol. Inteligente, perspicaz, é resultado do meio acadêmico e da turma do fundão.

O problema é que o treinador mais bem pago do futebol ainda não conseguiu enfrentar o Barcelona de igual para igual. No primeiro dos quatro embates entre ambos, registrado no sábado, foi preciso retirar Özil do meio de campo para fortalecer a marcação do setor com Pepe.

No primeiro turno, a equipe tida como ideal foi atropelada em Barcelona, num 5 a 0 incontestável e histórico. Agora foi preciso deixar o orgulho de lado, marcar e jogar nos contra-ataques.

Desta vez, o empate com gols de Messi e de Cristiano Ronaldo mostra o copo meio cheio e meio vazio. A forte marcação desequilibrou o fluxo de passes dos catalães pelo campo, cuja característica principal, a posse de bola, foi até ampliada, terminando em incríveis 72%.

O Real Madrid teve a bola nos pés apenas por 28% do tempo, mas finalizou quase o mesmo número de vezes que o rival: nove contra dez. Por isso é preciso cruzar os números com o movimento do campo. Ajudar a encher o copo.

O esquema idealizado por Mourinho mostrou que o Barcelona pode se sentir desconfortável mesmo apresentando seu futebol com etiqueta de grife.

Sábado, parecia o Barça, mas não era o jogo do Barça, apesar das estatísticas. O Real fez muito sem a bola e o Barcelona pouco com ela.

O Madrid tem uma saída para recuperar a confiança do time nos enfrentamentos com o Barcelona, mesmo que o custo disso seja admitir inferioridade tática e se esparramar pelo campo como um time pequeno, modesto a ponto de alterar completamente suas características para impedir o rival de jogar. Esse, evidentemente, não é o modelo de Florentino, embora já tenha sido usado por Mourinho, no ano passado, na campanha da Internazionale campeã europeia. E com sucesso sobre o Barça.

Os jogadores merengues querem uma equipe mais agressiva, sabem que marcar é importante, mas que não é tudo. Não basta recuperar a bola e colocar Cristiano Ronaldo para correr, o Real Madrid pode mais.

Por isso, a decisão da Copa do Rei começa exatamente do ponto onde terminou o primeiro confronto, que no caso de um Real Madrid x Barça, pode ser definido também como conflito.

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