Mudanças

Não precisou de muito tempo para os jogadores detectarem mudanças. E o chefe, as deficiências são-paulinas. Preocupado em dar respostas rápidas, Ney Franco não se importou com os problemas que poderia arranjar em citar o Corinthians - o da Libertadores - como exemplo de comportamento coletivo.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h04

A resposta do treinador veio de duas formas. Primeiro surgiu no discurso: envolvimento, comprometimento, empenho e marcação. Palavras perfeitas parar definir o time que não marca ninguém, acostumado a observar o oponente e não a enfrentá-lo.

A falta de tudo isso já explicaria o insucesso de qualquer grupo e sistema, mas era necessário também ajustar a estrutura tática. Ontem, contra o Figueirense, sem Lucas e Luis Fabiano, Ney optou pelo 3-5-2 para proteger a defesa do estilo de Cortez. Isso mesmo, o cabeludo do setor esquerdo tem sido ótimo caminho para o ataque. O problema é que essa via serve ao São Paulo e a seus adversários. Cortez não aprendeu a jogar como lateral, não reconhece a primeira missão da posição, a de marcar. Não integra a defesa.

Aí se justifica o sistema que ainda é a salvação de muitos treinadores brasileiros. Para tornar o time menos vulnerável e conquistar a primeira vitória no comando, Ney Franco escalou Denílson e Maicon para guardar seus três zagueiros, subiu os laterais para o meio-campo e aproximou Jadson de William José e Ademílson, menino da base que ele conhece bem, autor do primeiro gol.

Agora falta dar um jeito no jogo coletivo, o responsável por ganhar títulos, aquele em que todos reconhecem suas obrigações, atacam e defendem. Não é utopia falar nisso, os exemplos são claros. Esse entendimento é o que mais contribui para a conquista de títulos.

A quatro meses do término do Brasileirão, a lógica seria encontrar o São Paulo mais bem arrumado, precisando apenas de alguns ajustes para competir pelo título. A realidade, entretanto, apresenta uma situação atípica para um clube que por muito tempo foi modelo de organização. Ney Franco acabou de chegar e terá que ser criativo para transformar um grupo de bons jogadores em uma verdadeira equipe de futebol.

A 27 rodadas do encerramento do campeonato, com direito a uma Copa Sul-Americana no caminho, falar em treinamento é provocação para quem está espremido e esfolado pelo calendário. A situação é terrível para um treinador que vem da academia, formado para desenvolver treinamentos objetivos, com sentido prático, de aprendizagem consistente, coletiva, diferente daquelas enrolações que servem apenas para fazer o tempo passar.

Por enquanto, o 3-5-2 é boa alternativa. Está carimbado no tricampeonato brasileiro de Muricy Ramalho. E continuará sendo utilizado, mais por necessidade que por superstição.

Agora falta aprender a marcar, a pressionar o adversário com a bola, e deixar que apenas o torcedor assista ao jogo. No campo, deve-se jogar.

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