Mudando a rotina

Enquanto o fogo se extinguia na pira do Estádio Olímpico de Londres, na belíssima cerimônia de encerramento dos Jogos, eu me peguei pensando sobre o que viria depois. Não no grandioso e distante depois, o do evento de 2016, no Rio. Mas no depois imediato, dali a alguns dias, o momento que estamos vivendo agora. Que tristeza ter que se reacostumar a uma rotina que não permite ligar a televisão e ver os maiores atletas do mundo dando o máximo de si nas piscinas, quadras, tapumes, pistas, raias, ringues, areias e aparelhos olímpicos. Que pena ver o futebol reassumir a condição de assunto único - ou virtualmente único - dos programas esportivos. Não porque não gostemos de futebol, nossa paixão maior, desde sempre e para sempre, mas porque a vida é mais rica quando não tem ares de monólogo.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h01

Claro que é gostoso poder retomar o contato com o Campeonato Brasileiro de futebol. Claro que estávamos com saudades dos nossos times no centro das atenções, das rixas com as torcidas rivais e das quartas e domingos de muita bola rolando. Claro que ainda somos o país do futebol, mesmo com tanta alegria e emoção nos chegando através das transmissões de vôlei. No entanto, já pensaram se entre uma e outra partida do Brasileirão a gente continuasse a acompanhar a evolução no jogo das meninas do handebol, as lutas dos irmãos Falcão e da judoca de ouro Sarah Menezes, as apresentações empolgantes de Arthur Zanetti, nas argolas, entre tantas outras modalidades que adoramos ver na telinha nas últimas semanas?

Infelizmente, muitos dos heróis olímpicos, sejam eles do Brasil ou de outros países, praticamente desaparecerão dos nossos radares depois de uns poucos dias mais de exposição na mídia, no rescaldo dos feitos de Londres. Depois disso, tome futebol! Muito se fala sobre a construção de uma mentalidade olímpica no País, que passa, sem dúvida, pelo desenvolvimento de bons projetos, pela moralização da governança das confederações e pela estrutura de apoio aos atletas - a começar pelo apoio psicológico, o que mais fez falta na Olimpíada. Tudo isso é importante. Mas nós, torcedores, também temos um papel a cumprir. E esse papel, como tudo o que diz respeito às massas, passa por um exercício de opinião e escolha. Canais de televisão são entidades com fins lucrativos e, portanto, só levam ao ar aquilo que dá audiência. De nada adianta clamarmos por maior exposição dos esportes olímpicos se quando eles surgem na telinha somos os primeiros a mudar de canal.

Precisamos mudar é a rotina. Continuaremos a curtir o futebolzinho nosso de cada dia, até porque 2014 está logo aí. Só que não podemos nos esquecer de 2016. Como anfitriões dos próximos Jogos Olímpicos, temos o dever moral de também acompanhar os nossos atletas das outras modalidades. Lamentavelmente, nem todas elas são transmitidas pelos canais esportivos, mas já há muitas e honrosas exceções. Hoje é possível seguir as principais etapas do circuito de tênis, as grandes competições do rúgbi, etapas do Mundial de atletismo e de ginástica, e assim por diante. Prestigiemos essas transmissões. Pode não parecer, mas isso fará diferença na construção de uma verdadeira cultura olímpica no Brasil.

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