Muitos quebra-cabeças

Boleiros

O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2008 | 00h00

Depois de ouvir Paulo César Caju dizendo que foi o único tricampeão em 70 que não foi convidado para a festa da comemoração do primeiro titulo mundial, ontem, em Londres; depois de mais um julgamento de fachada do tribunal, que dá a pena de acordo com a conveniência da tabela, agindo com hipocrisia e cinismo, numa demonstração de que a lei existe para não ser cumprida; depois de assistir mais um jogo do Campeonato Paulista disputado num gramado que mais parecia um pasto que acabara de receber uma manada de búfalos famintos; depois de assistir a um nadador secundário quebrar dois recordes mundiais em dois dias e, ao ver sua foto, ter a impressão de estar diante de um personagem saído da série ''Terra dos Gigantes'', tal a enormidade de seus músculos, desenvolvidos com a ingestão de estimulantes ''supernaturais''; depois de ouvir do próprio Juca Kfouri a história absurda do seu não-credenciamento para a Copa de 98 e da posterior ligação da Fifa para a diretoria da Folha para um pedido formal de desculpas, dizendo que ocorrera um ''equívoco''; depois de ler que um iceberg com uma área equivalente a um terço da cidade do Rio de Janeiro se desprendeu em tempo recorde na Antártida e que a plataforma de onde ele se soltou (com 16 mil quilômetros quadrados!) está por um fio da desintegração total; depois de ver o nosso ministro da Justiça se comportar como um novo e patético Rambo feito à imagem e semelhança do Jeca Tatu; depois da dengue e da febre amarela; depois de perder, todos os santos dias, horas preciosas da vida na loucura irremediável que é o trânsito de São Paulo; depois de perceber em cada discurso de improviso do nosso presidente (que nisso é igual ao que o antecedeu) sua facilidade para desviar o sentido de suas idéias para onde aponta o nariz de seus interesse eleitoreiros e convenientes... acho que precisamos de uma pausa.Uma pequena pausa para rever se as coisas estão nos seus devidos lugares. Se as pessoas certas estão nos lugares adequados ou se não há uma inversão total de princípios e premissas daqueles que ocupam cargos públicos, altos postos das empresas privadas, e até mesmo de nós, cidadãos comuns que temos de gerir nossos rumos e destinos. Se o modo como estamos agindo não merece completa revisão e a busca de outra perspectiva para encarar a vida. Se não estamos simplesmente perdendo totalmente a noção elementar do que é certo e errado. Se os critérios para estabelecer o que é fundamental e de direito não se transformaram num corolário de desculpas que tentam justificar a inépcia e a incapacidade daqueles que deveriam por responsabilidade fazer essa distinção. Se não há um senso deletério de oportunismo guiando as ações, sejam elas governamentais, não-governamentais, sociais, pessoais e todos outros ais. Se o princípio burguês do lucro imediato, se a ideologia assassina que norteia o capitalismo, o comunismo, o individualismo, o corporativismo e todos os outros ismos, não esqueceu que a grande riqueza é a dignidade da existência de cada indivíduo.Não sei, mas tudo parece estar fora de lugar. Parece que os nossos olhos perderam o foco, que uma nuvem escura e espessa de sujeira áspera embaçou a lente de nossos óculos. Está tudo errado. Felizmente ainda tenho um trabalho para me sustentar, um teto para morar, o amor de meus filhos para me guiar e uma namorada que também gosta de fazer quebra-cabeças.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.