Matsui Mikihito / CPB
Matsui Mikihito / CPB

Mulheres mostram domínio inédito na Paralímpiada e fazem Brasil subir no quadro de medalhas

Três ouros conquistados em um único dia faz desempenho das mulheres no Japão ser melhor do que os jogos paralímpicos da Rio-2016

Caio Possati, Especial para o Estadão

30 de agosto de 2021 | 05h00

Dos quatro ouros conquistados pelo Brasil no quinto dia de Paralimpíada de Tóquio, três deles vieram de performances das mulheres. Alana Maldonado (Judô), Maria Carolina Santiago (Natação) e Mariana D’Andrea (Halterofilismo) subiram no lugar mais alto do pódio e levaram o País para o 6º lugar no ranking do quadro de medalhas. O nadador Gabriel Araújo, que venceu a final dos 200m livres pela classe S2 (para atletas com deficiência física severa), conquistou a quarta medalha dourada do dia.

Com os três ouros em uma única noite, o Brasil teve um desempenho feminino superior a toda Paralimpíada do Rio de Janeiro. Em 2016, dos 14 medalhas douradas , duas vieram exclusivamente de vitórias de mulheres. Ambas no atletismo, com Shirlene Coelho (lançamento do dardo) e Silvania Costa (salto em distância), que se tornou bicampeã paralímpica em Tóquio pela mesma modalidade. 

Além da quantidade de medalhas já ser superior em relação aos jogos passados, os ouros das brasileiras também demonstram que as atletas do País estão sendo dominantes em outras modalidades para além do Atletismo. Na natação, o Brasil não tinha uma atleta vencedora na Paralimpíada desde 2004, quando Fabiana Sugimori venceu os 50m livre S11, em Atenas.

A responsável por quebrar essa escrita de 17 anos foi a pernambucana Maria Carolina Santiago, de 36 anos, que venceu a prova dos 50m livre da classe S13 (para deficientes visuais), quebrando o recorde olímpico com o tempo de 26s82. A nadadora, que já havia conquistado um bronze nos 100m costas nas piscinas do Centro Aquático de Tóquio, é a atual detentora do recorde mundial da prova (26s72).

 

Os jogos paralímpicos de Tóquio são os primeiros da recifense, que nadava competições convencionais até 2018. A baixa visão que possui é consequência da síndrome Morning Glory, que Maria Carolina tem desde quando nasceu. A síndrome provoca uma alteração na retina que diminui o campo de visão da pessoa. Por não ter uma visão completa, ela fez a iniciação esportiva pela natação por ser um esporte que gera pouco impacto e que demanda menos o uso do sentido da visão.

Na preparação para os jogos de Tóquio, a nadadora venceu as provas de velocidade livre nos mundiais de Londres em 2019 e nos Jogos Parapan-Americanos de Lima do mesmo ano. Com duas medalhas garantidas, ela volta a cair na água nas provas dos 100m livre na classe S12, cujas classificatórias começam na noite desta segunda, a partir das 21h38.

Mariana D'Andrea fez valer a posição de líder do Ranking Mundial para conseguir o ouro no Halterofilismo na sua segunda participação em jogos paralímpicos. A estreia aconteceu em 2016, no Rio de Janeiro, um ano depois da paulista, natural de Itu (interior de São Paulo), ser convidada pelo atual treinador, Valdecir Lopes, a praticar o halterofilismo e o levantamento de peso. Cinco anos depois, e com 23 anos, ela foi a única a superar os 134kg erguidos pela chinesa Lili Xu e levantar 137 kg, peso inalcançável para outras adversárias. 

"Não tem gratidão maior do que ganhar esta medalha após cinco anos de treinamento. Agradeço a todos pela torcida e pela oração. Quero deixar registrado aqui, que se você tem sonho, corra atrás dos seus objetivos e os conquiste", disse Mariana, emocionada, após conquistar a primeira medalha paralímpica de ouro para o Brasil na modalidade.

Nos tatames, Alana Maldonado também conseguiu um ouro inédito para o Brasil, e se tornou a primeira judoca brasileira a subir no lugar mais alto do pódio em uma Paralimpíada. Com 26 anos, Alana luta judô há mais de duas décadas. Ela começou a praticar a modalidade aos quatro, e passou ao judô paralímpico em 2014 quando já estava na faculdade. Hoje, ela disputa as competições na classe B3 (para deficientes visuais que conseguem definir imagens), por conta da Doença de Stargardt, diagnosticada quando ela tinha 14 anos.

"Agradeço a toda a minha família e à comissão técnica, que estiveram sempre do meu lado neste ciclo tão difícil. Sou outra atleta em relação aos Jogos do Rio. No Brasil, estava do lado dos meus amigos e da minha família. Agora, fui campeã na terra do judô. Obrigado a todos que torceram. Esta medalha não é só minha. É de todos", disse Alana, que foi medalhista de prata nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro.

Gabriel Araújo

A quarta medalha conquistada na madrugada de domingo foi de Gabriel Araújo, na prova de 200m livre da classe S2, uma classe para atletas com deficiência física severa. Gabrielzinho, como é carinhosamente chamado, possui focomelia, uma doença congênita que compromete a formação dos braços e das pernas. O ouro conquistado é a segunda medalha do nadador em Tóquio. Ele ficou com a prata nos 100m costas, prova disputada pela mesma classe.

O mineiro de 19 anos, e torcedor do Cruzeiro, passou a competir nas piscinas depois que um professor de Educação Física sugerir a prática da natação durante um evento nos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG). Mesmo jovem, o nadador desponta como um dos principais atletas da sua categoria na modalidade. Além das duas medalhas, Gabriel é o atual campeão Parapan-Americano nos 50m e 100m livres, e em Tóquio, além das duas medalhas, também conseguiu quebrar o recorde das Américas.

"Espero que esse seja o primeiro (ouro) de muitos outros. Era isso que eu queria. Foi para isso que eu vim. Consegui baixar o meu tempo, fiz o novo recorde das américas. Treinamos forte, estava tudo controlado, eu sabia o que fazer e o resultado veio. Não existe emoção maior", comemorou o nadador.

 

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