Mundial abre crise entre a áfrica do sul e o Lesoto

Habitantes do reinado encravado no território sul-africano queixam-se da venda de recursos naturais para a sede do Mundial e reclamam das exigências para cruzar a fronteira

, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

Mapule não sabe que a Copa do Mundo está ocorrendo, menos ainda que algumas partidas estejam sendo disputadas a 200 quilômetros de sua casa. Ela vive no topo de uma montanha, sem eletricidade nem estradas. Mas não reclama da escuridão. "Pela noite, a lua ilumina os caminhos", diz. A tranquilidade acaba quando comenta que está ficando sem água. A voz exibe um tom de desespero.

A Copa do Mundo da África do Sul está secando o Lesoto e reabrindo tensões entre os dois países. Incrustado no território sul-africano, o Lesoto é um dos principais exportadores de água potável e energia para a África do Sul. Mas seus poços estão vazios, causando protestos na população. Para completar, os sul-africanos usaram a Copa do Mundo para fechar a fronteira entre os dois países, supostamente por questões de segurança. A população miserável de Lesoto argumenta que se trata de uma manobra para evitar os trabalhadores imigrantes.

A duas horas de distância do estádio onde Inglaterra e Alemanha se enfrentarão no domingo em Bloemfontein, o Lesoto é o país mais elevado do planeta. Nenhuma parte de seu território fica abaixo de 1,4 mil metros do mar, com suas montanhas e rios. "O país inteiro seria um parque natural se estivesse na Europa", diz Thomas, um guia inglês que há três anos trabalha em Maseru, capital do país.

Mas a realidade é bem diferente do cenário paradisíaco do país. No fim dos anos 90, vales inteiros foram inundados para produzir energia que seria exportada para a África do Sul. Além disso, o Lesoto exporta 65 milhões de metros cúbicos de água por mês para seu vizinho. A venda garante a um dos países mais pobres do mundo uma renda de US$ 4 milhões por mês. Em pouco mais de uma década, a exportação garantiu US$ 380 milhões ao país conhecido como Reino das Montanhas.

Mas, para a população, não só os benefícios da exportação não foram sentidos como o impacto tem sido um volume cada vez menor de água para o consumo doméstico. Mapule conta que tem um poço perto de sua casa, que fica no topo da montanha de Makhaorane. Mas que parte de sua família precisa caminhar por 40 minutos para buscar água. "Metade do mês, a bica está seca", se queixa. As torneiras públicas foram fechadas em muitos lugares.

Nos últimos meses, as obras para a Copa na vizinha África do Sul e a necessidade de não permitir um apagão durante o Mundial fizeram com que as exportações de água e energia aumentassem ainda mais, acelerando o problema da falta de água. Por minuto, o cálculo do próprio governo é de que 60 mil litros extras de água estão sendo redirecionado do Lesoto para a África do Sul durante a Copa. A gigante de energia Eskom prometeu à Fifa e ao governo que não faltaria energia.

Passaporte. Os problemas entre os dois países não param na questão da água. O governo sul-africano suspendeu um acordo assinado em 2007 facilitando a circulação da população de Lesoto no país da Copa. As fronteiras passaram a ser controladas e um visto e passaportes, exigidos. Na fronteira próxima à cidade de Maseru, por onde o Estado passou, a fila de carros chegava a um quilômetro, enquanto cidadãos de Lesoto protestavam.

O Conselho de ONGs de Lesoto protestou e acusou os sul-africanos de não estar cumprindo a promessa de que a Copa seria "para todos os africanos". O governo de Lesoto confirmou que os sul-africanos haviam declarado o acordo como suspenso sem realizar qualquer consulta. O porta-voz do Ministério do Interior da África do Sul, Ronnie Mamoepa, negou que a crise tenha surgido por causa da exigência de passaporte. "Só estamos tratando todos os países de forma igual", indicou. "Não há nada demais nisso."

Mas, com o Lesoto sendo totalmente rodeado pela África do Sul e apenas com um voo por dia, exatamente para Johannesburgo, a população é dependente do poderoso vizinho. Para completar, há cinco anos, o governo do Lesoto não emite passaportes, por falta de recursos. O resultado é que a maioria das 1,8 milhão de pessoas no Lesoto que trabalham na África do Sul está impedida de chegar aos seus empregos.

Abandono. Para Suelize, costureira, a medida não tem qualquer relação com a Copa ou sua segurança. "O que querem é tirar nossos empregos e dar aos sul-africanos", disse. Desmond, motorista de 39 anos, acusa os sul-africanos de ter memória curta. "Durante os anos do Apartheid, os líderes sul-africanos usavam o Lesoto para se esconder e para armar suas guerrilhas. Agora, esses mesmos líderes nos abandonam", disse.

O Lesoto vive um colapso social. Mineradoras sul-africana demitiram milhares de trabalhadores do pequeno país nos últimos anos para dar lugar aos negros da África do Sul, que também estão desesperados por trabalho. O Lesoto fechou um acordo para exportar toda a sua produção para os Estados Unidos sem impostos. Empresas têxteis da China desembarcaram no pequeno país. Mas, com a crise a partir de 2008, as demissões foram inevitáveis. De 50 mil trabalhadores no setor têxtil em 2009, hoje sobram apenas 30 mil.

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