Mundial de futebol ou de picuinhas?

Acompanho com atenção e certa dose de perplexidade a polêmica na qual se transformou a (in)definição do palco de São Paulo para a Copa do Mundo de 2014. A atenção deve-se, evidentemente, ao aspecto jornalístico do tema, recorrente em nossas reportagens. Já a perplexidade é consequência da observação do comportamento dos responsáveis pela organização do Mundial brasileiro.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2010 | 00h00

Exatos 64 anos depois de sediar a competição, o Brasil terá a oportunidade de recebê-la novamente, só que desta vez em um contexto completamente diferente. Se em 1950 o cenário era semi-amador, hoje o País abre as portas para aquele que é considerado o maior evento do planeta. São bilhões de telespectadores capazes de girar e gerar outros tantos bilhões de qualquer moeda forte que circule por aí. Uma chance rara para fechar negócios e criar oportunidades.

O problema é que a grandiosidade de uma Copa do Mundo ainda não foi suficiente para superar pequenas intrigas que tumultuam o núcleo da organização brasileira. O que constatamos nos bastidores é que a participação de São Paulo foi relegada a birras e choques de vaidade de todos os lados envolvidos.

A Fifa e a CBF conseguiram irritar os três níveis do poder (Prefeitura, Estado e União) ao se comportar como interventores ianques em um país de banguelas. Os dirigentes das duas entidades se sentiram tão poderosos que chegaram ao ponto de atropelar a liturgia diplomática e passar a criticar abertamente estádios, hotéis, aeroportos, estradas, transporte público, segurança e o que mais desse na telha. Só faltou pedir para aprovar o discurso das autoridades brasileiras antes das cerimônias.

As represálias não tardaram. Pouca gente percebeu, mas entre os convidados do presidente Lula presentes à cerimônia do dia 19, em Brasília, na qual foram assinadas medidas para ampliar a possibilidade de endividamento das cidades-sede, destacava-se Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo e desafeto de Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Local. O recado estava dado, principalmente pelo fato de Teixeira também ter comparecido ao evento.

Os representantes do governo do Estado e do Comitê Paulista, por sua vez, adotaram a estratégia do desdém. Alegam que São Paulo é mais importante para a Copa do que a Copa para São Paulo. Talvez até estejam certos. Mas fica a pergunta: abrir mão das possibilidades que um grande evento traz para a cidade é a melhor alternativa? Será que não temos capacidade de transformar um grande evento em algo positivo? Temos pelo menos dois exemplos: o sucesso de Barcelona e o enrosco de Atenas. A questão, entendo, passa pela definição de o trabalho será baseado no interesse comum ou servirá apenas para ver quem ganha o "Mundial de Picuinha".

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