Tasso Marcelo/AE - 19/9/2011
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Mundial vai elitizar os torcedores brasileiros

Estádios luxuosos e sem lugares populares tornarão o futebol nacional um lazer para os mais ricos

RAPHAEL RAMOS, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h07

Entre as diversas transformações que a Copa do Mundo trará ao Brasil depois de terminada, destaca-se a mudança do perfil e, consequentemente, do comportamento dos torcedores. A expectativa é que ocorra uma elitização do público frequentador dos estádios, assim como uma espécie de "domesticação" desses torcedores. O próprio formato das arenas que estão sendo construídas foi concebido pensando nessa alteração.

É o que defende Antonio Holzmeister Oswaldo Cruz, doutor em Antropologia Social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e que desenvolveu uma pesquisa sobre as transformações das torcidas e dos estádios ao redor do mundo.

"A elitização do público após a Copa é uma situação de causa e efeito que segue uma tendência quase que mundial no futebol globalizado de hoje", diz. "O que se busca é uma torcida mais expectadora do que participativa."

Ele cita o exemplo do Maracanã. O estádio que já chegou a receber mais de 183 mil pessoas teve sua capacidade reduzida para 86 mil espectadores após diversas obras de modernização. Para o Mundial, esse número diminuirá ainda mais: 76.500.

"Para onde vão esses quase 10 mil lugares que tiraram do estádio? Vão para camarotes e assentos maiores que a Fifa exigiu", afirma. "O futebol brasileiro vai ter de lidar com isso."

Marcos Alvito, antropólogo, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e fundador da Associação Nacional dos Torcedores, destaca que um dos marcos desse processo de elitização do futebol brasileiro foi o fim da geral do Maracanã, em 2005.

"Foi desnecessário. O Maracanã deveria continuar como estava para os jogos nacionais e nos internacionais poderiam colocar cadeiras provisórias. Foi o que a Alemanha fez na Copa de 2006", diz.

Alvito também critica como o dinheiro público está sendo usado para o Mundial. Sua principal queixa é que os mais pobres estão pagando por estádios que não poderão usufruir depois.

"É um processo que eu chamo de Robin Hood ao contrário. Os estádios serão como shoppings, com lojas e restaurantes, já que se busca um público de maior poder aquisitivo", diz.

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