Mundo da bola se rende ao poder de Leonardo

Hábil negociador, brasileiro tem a missão de transformar o ouro do Catar em um grande time de futebol na França

FERNANDO FARO, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h08

"Não se compete com o dinheiro do PSG". Foi com essa frase simples que o presidente da Inter de Milão, Massimo Moratti, resumiu a impotência de alguns dos clubes mais tradicionais da Europa enfrentarem o Paris Saint-Germain, mais novo multimilionário do mundo da bola. Desde que foi comprado pelo Qatar Sports Investments (QSI), no ano passado, o jovem clube francês (completou 42 anos de fundação no último dia 12) passou de uma agremiação de relativa força internacional a principal candidato a bater de frente com Barcelona e Real Madrid pelos principais títulos. Para atingir o objetivo, assombrou o mundo e gastou 148 milhões só nessa janela de transferência (mais 106 milhões na anterior) para contratar estrelas como Thiago Silva, Ibrahimovic e Lavezzi. A força dos franceses foi acompanhada mais de perto após proposta estratosférica de 43 milhões que tirou Lucas do São Paulo.

Todo esse poder está concentrado nas mãos do brasileiro Leonardo, contratado no ano passado pela QSI para administrar as cifras milionárias e dar andamento ao projeto de transformar o PSG no time mais forte do mundo. Desde que assumiu, contratou 16 reforços, entre eles o uruguaio Lugano, os brasileiros Alex e Maxwell, o argentino Pastore e o italiano Sirigu, isso sem contar a nova leva estelar. Além do time, teve participação direta na escolha de Carlo Ancelotti, com quem trabalhou no Milan, para comandar o elenco.

O emprego do outro mundo apareceu em um momento de dúvida na carreira de Leonardo, que deixou o posto de gerente do Milan para se arriscar como técnico primeiro do clube rubro-negro para em seguida migrar para a arquirrival Inter. Foi justamente como dirigente que demonstrou grande habilidade como negociador e descobridor de talentos. Foi por insistência sua que Silvio Berlusconi resolveu levar Kaká, Thiago Silva e Alexandre Pato, destes apenas o último a um custo elevado ( 15,6 milhões, enquanto Kaká saiu do São Paulo por U$8,5 milhões e Thiago Silva assinou de graça após terminar seu vínculo com o Fluminense). A experiência bem-sucedida como gerente e o fato de ter identificação com o clube (que defendeu em 1996-97) fizeram Nasser Al-Khelaifi, dono do QSI, bancar a contratação e lhe dar carta branca para agir.

Desde então dinheiro realmente parece não ser um problema e é capaz até mesmo de mudar o destino de negociações praticamente sacramentadas. Que o diga Lucas, mais nova (e cara) joia parisiense. O meia estava acertado com o Manchester United e com os contratos prestes a serem assinados, mas uma ligação mudou radicalmente os rumos da sua carreira.

"O São Paulo mandou o advogado na Inglaterra para a assinatura dos contratos, então o Leonardo ligou perguntando se já tinha assinado e disse para esperar porque ele cobriria a proposta. Ele me mandou uma passagem, conversamos e depois o liberei para falar com o Lucas, que sentiu muita firmeza e resolveu abraçar o projeto", afirmou Wagner Ribeiro, agente de Lucas.

Encantos. É claro que os altos salários e a possibilidade de morar em uma das cidades mais bonitas e ricas do mundo são atrativos suficientes para fazer um jogador trocar de clube, mas Leonardo tem se mostrado um hábil articulador para convencer os atletas a trocarem os campeonatos mais fortes pela Ligue 1, de nível técnico ainda inferior.

A forma e o entusiasmo como o brasileiro apresenta o PSG tem encantado os jogadores, como deixou claro Ibrahimovic assim que confirmou sua saída do Milan. "Quero agradecer muito ao PSG e a Leonardo pelo trabalho bem feito. Ele transformou o impossível em possível. É um projeto muito interessante e estou feliz por fazer parte dele", elogiou.

Mesmo na mesa de negociações, Leonardo mantém o estilo sereno e tranquilo que sempre o caracterizou. Mas o sucesso e respeito europeu não vieram apenas graças às contratações. Sua reputação exemplar como jogador apenas aumentou quando passou para o outro lado.

Além da experiência bem-sucedida no Milan, conquistou os franceses por sua postura equilibrada e outros detalhes mais sutis, como o fato de estar sempre bem vestido (não abandona nunca os ternos bem cortados) e falar francês fluentemente apesar de ter jogado apenas uma temporada no país. Durante a apresentação de Maxwell chegou até mesmo a corrigir o tradutor, que resumia demais as declarações do lateral. "Converso com presidentes e dirigentes dos maiores clubes do mundo e todos têm o maior respeito por ele. Leonardo é um cara sério do futebol e admirado", completou Ribeiro.

Pressão. Apesar do PSG ser o maior gastador da Europa, a montanha de capital injetada ainda não se traduziu em títulos e chegou a fazê-lo balançar. Primeiro comprou briga com a torcida ao demitir o ex-técnico Antoine Koumbouaré, que defendeu o clube entre 1990 e 1995 e gozava de enorme prestígio com os parisienses. Para piorar, as promessas de montar um esquadrão logo de cara falharam e embora alguns bons atletas tenham chegado, os principais nomes prometidos como Alexandre Pato, Carlitos Tevez e David Beckham não acertaram.

Dentro de campo, mais decepção. Na primeira temporada como "novo rico" o time ficou em segundo no Campeonato Francês, perdendo o troféu para o modesto Montpellier. Na Liga Europa, situação ainda pior: foi desclassificado na primeira fase pelo Redbull Salzburg, da Áustria. A falta de conquistas gerou boatos de que Leonardo deixaria o clube, informação rebatida por Al-Khelaifi. "Ele é parte importante do nosso projeto e está fazendo um trabalho excelente."

Fortalecido, foi novamente às compras e começou a mostrar sua forte rede de contatos para as grandes transferências. Trabalhou intensamente, sempre discreto e incisivo e adquiriu peças que, se entrosadas, devem finalmente cumprir a meta de colocar a equipe na rota dos títulos. Caso a projeção se cumpra, Leonardo terá papel fundamental no feito graças à habilidade de negociar e convencer jogadores de prestígio mundial a embarcar no audacioso projeto do PSG.

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