Munique/1972: a semente do medo

Luiz Cláudio Menon, da seleção brasileira de basquete, foi o porta-bandeira do Brasil na Olimpíada de Munique, de 26 de agosto a 11 de setembro de 1972. O hoje endocrinologista de 60 anos, viveu, então, uma ambigüidade de sentimentos ? passou da euforia pela honra de ser o porta-bandeira à tristeza pelo clima que tomou conta dos Jogos após o atentado da organização extremista Setembro Negro, que resultou na morte de 11 atletas israelenses. ?Foi uma surpresa enorme para o mundo. Algo assim não havia sido cogitado. Tinha sido escolhido para levar a bandeira e estava emocionado já no ensaio para a cerimônia de abertura. A alegria, dias depois, virou tristeza. O atentado acabou com o brilho dos Jogos. O desfile de encerramento foi muito triste, com as luzes do estádio apagadas e a bandeira de Israel a meio pau?, relembra Menon. O ataque ocorreu às 4h30 do dia 5 de setembro de 72 ? os terroristas anunciaram que eram palestinos e queriam que Israel libertasse 200 prisioneiros árabes. O prédio nº 31 da Vila Olímpica foi invadido e os atletas seqüestrados. Foram quase 24 horas de angústia e medo que terminaram com as mortes, na base aérea de Firstenfeldbruck, com um tiroteio e a explosão dos helicópteros que transportavam atletas e terroristas ? tomariam um avião para o Cairo. Durante a invasão à Vila, Menon percebia que algo estava errado pela presença de encapuzados na varanda do prédio dos israelense, ?da Vila forrada de policiais, dos helicópteros que desciam, subiam e sobrevoavam a Vila, da ordem para não deixar o alojamento...? Só no dia seguinte, quando acordaram, os brasileiros souberam o que tinha acontecido. Hélio Rubens Garcia, armador da seleção brasileira de basquete, também se recorda da imagem dos terroristas ?armados no telhado do prédio? e, principalmente, do ?silêncio absoluto que se fez no Estádio Olímpico lotado quando da cerimônia em homenagem aos mortos?. E dos dias que se seguiram, com pessoas depositando flores e acendendo velas em frente da Vila e no estádio. ?Nunca vai sair da minha cabeça aquela cerimônia de encerramento, praticamente fúnebre.? Hélio Rubens, técnico da Unit/Uberlândia, também se lembra da incerteza sobre a continuidade dos Jogos. E de perguntas sem resposta: ?Os terroristas se passaram por atletas que voltavam de uma festa? Saltaram a cerca? Trabalharam na construção da Vila para conhecer bem o local?? Francisco Sérgio Garcia, o Fransérgio, dividia a posição de armador da seleção de basquete com o irmão Hélio Rubens. Hoje, aos 55 anos, é cardiologista em Franca. ?Munique foi uma Olimpíada marcante. Os alemães tinham interesse em acabar com a imagem do nazismo que incomodava o país. A Vila Olímpica era uma festa, até que ocorreu o atentado. Passou a haver um rigor tremendo na vigilância. A festa acabou, deu lugar à tensão e ao medo.? A Vila era um conjunto de prédios baixos, com sacadas nos apartamentos. ?Lembro que da nossa sacada era possível ver os homens encapuzados. Na hora, apesar de estar todo mundo assustado, não parecia tão grave. Depois é que fomos saber tudo o que houve no aeroporto.? Nelson Prudêncio, do salto triplo, e o judoca Chiaki Ishii, pai de Vânia Ishii, hoje na seleção que vai aos Jogos de Atenas, foram os dois únicos medalhistas do Brasil em Munique. Ambos ganharam bronze. Nelson tem 60 anos, é professor na Universidade de São Carlos e vice-presidente da Confederação Brasileira de Atletismo. ?Soube pela imprensa, no dia seguinte. A movimentação na Vila mudou de uma hora para outra. Um silêncio tremendo deu lugar à agitação.? Abel Braga era zagueiro da seleção brasileira de futebol. Hoje, aos 51 anos, comanda o Flamengo. ?Foi muito triste. Havia pessoas chorando pelas ruas e era claro o clima de frustração. Mas não acho que tal fato possa se repetir em Atenas. Embora os terroristas sejam loucos, suicidas que não se matam sozinhos. Fogem completamente da razão.? Carlos Domingos Massoni, o Mosquito, da seleção brasileira de basquete, tem 65 anos. ?Naquele dia, quando voltamos de um treino, na hora do desembarque do ônibus, que era em um estacionamento subterrâneo, percebemos que algo estava estranho. Existia uma movimentação diferente. Soubemos que a competição poderia ser interrompida. Ninguém esperava que os terroristas fossem mexer com atletas.? Cláudio Biekarck, velejador da classe Finn nos Jogos de 1972 e hoje técnico de Robert Scheidt, disse que as competições de vela foram disputadas em Kiel, ao norte de Munique. ?A vela parou dois dias, vivemos grande expectativa sobre a interrupção da Olimpíada, vendo tevê e acompanhando o choque de toda a população do país.? Um ataque inesperado. ?Nunca se pensou que terroristas fossem atingir esportistas.? Mas o treinador, que acompanhará Scheidt a Atenas, garante que não tem medo. ?Se for assim, é melhor ficar em casa. Hoje em dia, vivendo em São Paulo, se tiver medo a pessoa não sai de casa.? E agora? ? Os Jogos Olímpicos de Atenas, de 13 a 29 de agosto terão o maior esquema de segurança já utilizado em um evento esportivo ? sete países, entre eles EUA, Israel, e Inglaterra, se uniram aos gregos para a tarefa. O orçamento para segurança já chegou a US$ 1,2 milhão e ainda pode aumentar, o efetivo que patrulhará as ruas da capital grega pulou de 50 mil para 70 mil homens e mais um teste do sistema de segurança, o oitavo, está em curso em Atenas. O massacre de Munique, os meandros da Guerra Fria com o boicote dos EUA a Moscou, em 1980, e o troco dos países do Leste Europeu em Los Angeles, em 1984, são fatos políticos que marcam os jogos. Mas hoje, o que alarma o mundo é o temor de ataques terroristas na primeira Olimpíada de Verão após o atentado de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center e a explosão de bombas nos trens de Madri em março deste ano. O governo grego, os organizadores da Olimpíada e o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, repetem que todo o possível está sendo feito para proteger os Jogos ? até a Otan estará envolvida na segurança, com vigilância aérea, marítima e um batalhão especializado no combate a ataques com armas químicas, radioativas e biológicas. Ao mesmo tempo, as explosões dos últimos dias em várias partes de Atenas enviam uma mensagem clara: não existe proteção absoluta. A cem dias da abertura dos Jogos, três bombas explodiram do lado de fora de uma delegacia de polícia em Atenas. A autoria do atentado foi reivindicada uma semana depois pelo grupo Luta Revolucionária, de extrema-esquerda. Até então, a polícia não tinha pistas. No mesmo dia, houve a explosão de dois pequenos botijões de gás, que danificou uma agência do Alpha Bank, um dos patrocinadores dos Jogos, em Atenas. Artefato semelhante foi encontrado antes que explodisse em uma agência do HSBC. O Célula da Resistência, grupo que nem a polícia grega conhece, assumiu a responsabilidade. Na sexta-feira, um navio com 1.619 passageiros foi impedido de partir para um cruzeiro pelas ilhas gregas por um telefonema anônimo, dando conta de uma bomba a bordo. A polícia revistou o barco, não encontrou nada e disse que tudo não passara de um trote. Paranóia ou não, o fato é que depois que a repórter Laura Peek, do The Times, perambulou duas horas e meia sem ser incomodada pelo Estádio Olímpico ? que deveria ser, hoje, um dos locais mais seguros do mundo ?, é possível acreditar em qualquer coisa. ?Poderia ter colocado várias bombas no estádio e sair sem ser vista.?

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