Muricy e a arte

Já discuti com torcedores são-paulinos sobre Muricy Ramalho em algumas ocasiões, inclusive nos dois anos em que fui comentarista de futebol em rádio e acompanhei de perto os títulos brasileiros que conquistou pelo clube. Não, era eu quem defendia Muricy; eles o criticavam acidamente, sobretudo pelos fracassos na Libertadores. Eu reconhecia erros e defeitos dele, mas achava e acho que tem uma característica que o faz especial entre os técnicos, mesmo na comparação com Mano Menezes ou Luxemburgo: a recusa à cultura do "chinelinho", traduzida no bordão "Aqui é trabalho, meu filho" e, mais importante, no cotidiano de treinos. Como Telê Santana, Muricy exige prática de fundamentos, ensaio de jogadas, compromisso nas aproximações. Está mais preocupado com a tática do que com a disciplina, com a coesão do que com a retranca.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2011 | 00h00

Foi por isso que pegou um time sem craques como aquele São Paulo, que nem sequer tinha um artilheiro, e montou um esquema com três zagueiros, com Jorge Wagner e Hernanes no apoio e com bons protetores de bola como Leandro e Souza, e o levou aonde levou. Sempre digo que o treinador não é autor nem protagonista do time, mas um coordenador que pode fazer cada jogador extrair seu melhor. Eis o que Muricy tem feito em quase todo clube aonde vai. Foi assim no Fluminense, que, apesar de jogadores criativos como Conca, sofreu bastante com desfalques em 2010. E, para desespero dos que diziam que seu método só dá certo em pontos corridos ou equipes defensivas, foi assim agora no Santos, campeão do Paulista de 2011. Os são-paulinos, às voltas com as inconsistências de Carpegiani, devem estar com muitas saudades...

Muricy falou que observa muito o basquete, por ser um esporte muito tático. Lembro que na Olimpíada de Pequim, em 2008, no confronto entre China e EUA, fiquei prestando atenção nisso: em como os americanos partiam para cima o tempo todo e, quando estavam sem a bola, marcavam a saída do adversário. O que cabe ao técnico é, com os jogadores, decidir como fazer isso: com uma linha de quatro no meio, mais avançado ou mais recuado, e dando liberdades nas situações adequadas. Então ele determinou que Léo e Jonathan, dois laterais que apoiam bastante, alternassem subidas: fixou Adriano à frente dos zagueiros; e orientou os atacantes e meias a roubar bolas na intermediária do adversário. Desse modo, um time que fica no campo de ataque a maior parte do tempo, por vocação do elenco, se tornou menos exposto.

Isso não significa que o Santos já seja o time compacto que Muricy deseja, e não é por sua culpa que o número de gols feitos caiu no período. Contra o Corinthians, teve mais chances na frente e sua defesa venceu a maioria dos duelos, tanto é que Liedson mal apareceu (pois precisa receber na área para fazer seus gols), mas no segundo tempo o maior volume foi do adversário. Arouca e Neymar jogaram muito, mas Ganso fez falta e Zé Eduardo pode até ser batalhador e ter dado uma assistência, só que se posiciona mal na área para aproveitar os cruzamentos. Hoje, contra o Once Caldas, no Pacaembu, o time tem todas as condições de obter a classificação, já que o venceu lá na semana passada. Mas Muricy é o primeiro a saber que nenhuma equipe pode esquecer de combater suas deficiências.

Ao contrário do que dizem freyrianos e antropofágicos, o futebol brasileiro não é grande apenas por causa de seus talentos individuais, dos habilidosos improvisadores: todos os grandes times da história tinham uma moldura tática para que os craques brilhassem com suas pinturas, sobretudo gols, como Neymar tem feito. Mesmo na seleção de 1970, que para muita gente dispensava técnico, os próprios jogadores sabiam que tinham de desempenhar funções e colaborar com os outros - e trataram de se arrumar no espaço e no tempo. Só com a prosa da tática é que se tem a poesia da técnica, os instantes em que dribles e chutes bonitos resultam na vitória. O Santos tem muito para ser considerado um time histórico, mas pelo menos representa a melhor herança do nosso futebol.

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