Tasso Marcelo/AE
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Muricy: 'foi minha conquista mais difícil'

Técnico revela ter sonhado com Telê, de quem é discípulo, e, sem modéstia, diz ter sido decisivo no título do Flu

Bruno Lousada, Leonardo Maia, Sílvio Barsetti / RIO, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

Em meio à euforia pela conquista do Brasileiro, requisitado a todo instante para cumprimentos e abraços e telefonemas de parentes e amigos, o técnico Muricy Ramalho fez uma revelação que emocionou ainda mais os tricolores, já em êxtase pelo título.

"Essa noite eu sonhei com o Telê Santana. Sonhei que dei um tremendo abraço nele. Tenho certeza de que ele está muito contente lá em cima com esse título do Fluminense", declarou Muricy, referindo-se ao ex-técnico da seleção brasileira e um dos maiores jogadores da história do Fluminense.

"Acho que esse sonho aconteceu porque falaram tanto dele durante a semana. Acho que foi por isso. Vi o Telê vivo no sonho. E prometi a mim mesmo que, se fosse campeão, ia falar sobre isso", prosseguiu Muricy, enquanto era observado por vários torcedores e dirigentes do clube. Telê Santana trabalhou com Muricy no São Paulo na década de 90 - ele morreu em 2006.

Pouco antes, logo após o apito final de Carlos Eugênio Simon, o treinador se virou para as arquibancadas do Engenhão, ergueu os dois braços e foi comemorar o quarto título de sua vitoriosa trajetória no Campeonato Brasileiro. "Foi bom demais, o mais difícil campeonato. O Fluminense mereceu. O clube agora vai melhorar em todos os sentidos", declarou. Mal havia levantado a taça, já traçava metas para levar o clube das Laranjeiras a outro patamar no futebol brasileiro.

Mesmo ao fazer a cobrança por uma melhora na estrutura, Muricy não deixou de destacar o que considerou o mais importante na campanha.

"A estrutura é importante, ajuda muito, mas são os homens é que fazem a diferença. Se o técnico não for bom, não adianta", apontou. Por um momento, ele abandonou a modéstia. "Normalmente o técnico não tem tanta importância assim, mas acho que contribuí bastante para essa conquista."

Ainda no gramado, segurando as lágrimas, Muricy encontrou espaço para falar com a família. Primeiro, o beijo por telefone na mulher; depois a comemoração com os filhos. "Graças a Deus acabou e deu tudo certo. Soltou as bombas, filho? Hoje você pode fazer barulho", vibrou.

Desabafo. O comandante tricolor também não perdeu a oportunidade de desabafar. Ainda estava intrigado com as críticas recebidas por ter recusado convite para dirigir a seleção brasileira. Queria honrar o compromisso com o clube. Ele contou que não imaginava levar o Flu ao título meses depois. Ontem, sentia-se aliviado.

"Se a gente não ganhasse, muita gente ia dizer: "tá vendo? Deixou a seleção e não foi nem campeão." Mas eu tenho que pensar nos meus princípios." Muricy, no entanto, não descartou a possibilidade de um dia voltar a ser lembrado para comandar a seleção. "Quem sabe? A gente não fecha as portas", comentou. Em seguida, ele exaltou o trabalho de Mano Menezes na equipe.

Despedida. O árbitro Carlos Eugênio Simon, de 45 anos, não vai mais fazer parte do quadro da CBF a partir de 2011. Com larga experiência internacional, ele esteve em três Copas do Mundo e apitou seis decisões de Campeonato Brasileiro.

Ontem, foi cumprimentado por vários jogadores dos dois times. Simon passou a integrar a Fifa em 1997. Foi sempre escolhido para jogos de peso, principalmente na América do Sul. "Recebi muitas críticas, mas faço um balanço positivo da minha carreira", declarou.

PERFIL - MURICY RAMALHO

RIO - Com longos cabelos e futebol refinado, Muricy Ramalho desfilou elegância como jogador do São Paulo e conquistou o Campeonato Paulista de 1975 e o Brasileiro de 1977. Depois, com a experiência que adquiriu no campo e no convívio com o técnico Telê Santana, de quem foi auxiliar na década de 90, virou treinador e não perdeu o bom e velho hábito de ganhar.

Novamente, numa cena repetida quatro vezes nos últimos cinco anos, Muricy ergue o troféu de campeão nacional, desta vez pelo Fluminense, e pode se gabar: é o mais vitorioso técnico brasileiro na era dos pontos corridos, iniciada em 2003.

"Eu mesmo me cobro muito. Preciso ganhar. É o único remédio que me faz bem. Tenho de vencer", disse o treinador, adepto do bordão "isso aqui é trabalho, meu filho" para explicar seus feitos. Em sua visão, sem sacrifício, dedicação e disciplina, a bola pune. Por isso, ele exige profissionalismo dos jogadores. "Às vezes, confundem futebol com diversão. Isso é trabalho. Mas a disciplina não precisa ser uma loucura. Apenas é preciso cumprir os horários e se doar nos treinos."

Seu estilo de comandar funciona na base da confiança. Ele explica sua filosofia, conversa com quem não está rendendo, mas não admite falta de compromisso. Se o jogador insistir em "pisar na bola", é afastado ou deixado de lado. "Não sou de chegar a um lugar e mudar tudo de cara. Vou impondo. Minha maneira de trabalhar e sei que dá resultado."

Depois de três títulos brasileiros pelo São Paulo e de passagem sem conquista no Palmeiras, Muricy chegou ao Fluminense neste ano com status de ídolo e de salvador da pátria. Da capital paulista trouxe o rótulo de ranzinza e a esperança de reerguer o clube. No Rio, o treinador mudou sua imagem de mal-humorado e adquiriu o hábito de caminhar pela manhã na orla de Ipanema, na zona sul da cidade.

Nesta reta final, sua rotina não mudou. Quase não saiu de casa, para evitar badalação. Chegou a recusar vários convites para participar de programas. Preferiu ficar em casa. Gosta de cozinhar e de assistir pela TV a programas de culinária e partidas de futebol.

Simples, dispensa terno e gravata. Tampouco usa prancheta. Ao recusar proposta para dirigir a seleção em julho, pois tinha contrato com o Flu, que vetou sua saída, abriu mão de um sonho para honrar seus princípios.

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