Muricy no Flu? Algo surpreendente

Muricy no Fluminense. Aí está uma notícia que me surpreende. Desde Mário Travaglini São Paulo não oferece ao Rio de Janeiro um representante tão legítimo, um paulista tão paulista. Está mais do que na hora de a Cidade Maravilhosa ouvir de vez em quando o som das ruas de São Paulo, das suas esquinas mais agressivas, da poluição e da nossa rudeza tão presentes na voz de Muricy. Está mais do que na hora da fala suave de um Andrade ou de um Joel Santana ser contraposta aos sons roucos e grunhidos de Muricy com seu sotaque tão absurdamente nosso, lapidado na várzea de Pinheiros e no desaparecido Parque do Povo. Vai ser engraçado seguir as entrevistas coletivas com as perguntas feitas em carioca e as respostas devolvidas em paulista. No começo talvez tudo caminhe bem com os cariocas caprichando na sua fala habitual, que se derrama suavemente sobre o interlocutor como uma onda de um mar calmo.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2010 | 00h00

E talvez Muricy, de sua parte, consiga, num esforço supremo, domar nossa dificuldade com os s finais das palavras e a aspereza dos nossos "erres" dobrados. Por um tempo talvez tudo ande bem.

Cuidado extra. O problema, porém, é que ele vai não só para o Rio, mas para o Fluminense. Comparado com o Tricolor carioca até clubes de gente polida e bem educada, como o São Paulo, por exemplo, parece um bando saído de algum reformatório. Não por acaso o Fluminense é chamado de pó de arroz. Por mais que existam várias explicações para as origens do apelido é inquestionável que contou muito o comportamento distante e aristocrático da torcida principalmente nos seus começos. Vi recentemente um filme mostrando o Fluminense dos anos vinte do século passado e suas instalações lembravam algum hotel sofisticado dos mais célebres locais turísticos da Europa. O clube mudou muito, é evidente, mas alguma coisa ficou. O Fluminense está mais para Parreira do que para Muricy. Ou mesmo mais para o fleumático, educado e prudente Ricardo Gomes, que aliás foi seu jogador, do que para Muricy. Mas parece que é para lá que ele vai com suas carrancas, suas risadas sarcásticas e suas respostas atravessadas. É possível que tenha sucesso, como teve Mário Travaglini em tempos distantes. Veremos.

Já soube, no entanto, das primeiras reações à sua chegada. Para um grupo de torcedores do Flu denominado NIT, Núcleo de Inteligência Tricolor, ele não parece ser de modo nenhum uma unanimidade. Para esse grupo, que mescla sarcasmo, esnobismo e bom humor, e que, portanto, é um legítimo representante das tradições do clube, Muricy não é exatamente uma boa escolha. O Núcleo de Inteligência Tricolor parece apenas uma brincadeira de torcedores instruídos e bem colocados na vida, mas não é. Influi muito no clube.

Decepção. E um amigo me confidenciou que uma das mulheres do NIT já lhe manifestou sua decepção pela provável contratação desse "mal-educado treinador" e, para não ouvir "palavrões e expressões grosseiras", já se propôs a não assistir a uma única partida em que Muricy estivesse presente no banco do Fluminense.

Bem, o ex-treinador do São Paulo e do Palmeiras deve saber muito bem disso. Boa sorte. Gosto bastante do Muricy, sou seu admirador incondicional. Ele é coisa nossa, um dos últimos representantes dos boleiros saídos da nossa várzea, um dos últimos grandes jogadores que nasceram aqui na cidade de São Paulo. Fora daqui parece sempre meio deslocado, alguém separado de sua casa.

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