Muricy prova que é bom de conversa

Muricy Ramalho provou que também é bom de conversa. Obcecado pelo trabalho dentro de campo, cinco semanas depois de assumir o comando do time, o treinador conseguiu corrigir os problemas defensivos de um grupo voltado para o ataque. Ainda é muito cedo para definir o que vai ser esse novo Santos, mas já ficou claro que saber defender não significa abrir mão de atacar.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

Uma tarefa não exclui a outra. Esse é um erro que normalmente se comete no futebol brasileiro. Mais uma vez, a exemplo de outras conquistas, Muricy foi um administrador de problemas, perdeu vários jogadores por contusão, entre eles Paulo Henrique Ganso.

Muricy provou ser bom de conversa porque conseguiu melhorar a defesa sem poder dedicar muito tempo aos treinamentos. São 11 partidas em apenas 36 dias, desde a estreia, o empate sem gols diante do Americana, no dia 10 do mês passado. Nesse período, com dois compromissos semanais, passou mais tempo recuperando os jogadores do que treinando.

Dono do ótimo bordão "aqui é trabalho, meu filho", o campeão brasileiro pelo Fluminense colocou em prática princípios básicos do futebol. É preciso que todos defendam. E até Neymar tem conseguido participar dessa missão. Ninguém vai perder uma perna por se dedicar um pouco mais.

O jogo final foi ótimo, a primeira etapa foi do Santos e a segunda do Corinthians. O detalhe é que os santistas ganharam a primeira e empataram a segunda. Além da boa postura defensiva, o time de Muricy venceu por saber se posicionar em campo e pressionar. O Corinthians foi certinho demais, amarrado, cada jogador na sua função, sem mobilidade, com Bruno César centralizado e dominado por Adriano.

No primeiro tempo, o Santos trabalhou muito pela recuperação da bola enquanto o Corinthians sentiu a falta do passe no meio de campo. Por isso contratou Alex, sonha com Ganso e fez proposta a Seedorf.

O ponto de desequilíbrio da final foi Arouca, o primeiro volante da equipe no ano passado. Ontem, entretanto, com a posse de bola ele foi um meia perigoso, invisível à marcação de Paulinho. Se isso é resultado do trabalho de Muricy, o treinador deve ser aplaudido pela mobilidade do grupo, que contrastava com a falta dela no Corinthians.

Na segunda etapa, o Santos recuou, os corintianos pressionaram, passaram boa parte do tempo na área adversária, mas faltou finalização, mesmo fisicamente sendo superior. A quantidade de partidas e o calendário embaralhado desenvolveram no Brasil a convicção de que o treinamento é detalhe na construção de uma equipe de futebol. Treinadores com pouco conteúdo no campo e muita lábia diante dos microfones ajudaram a desenvolver essa percepção.

Não é fácil para um sujeito como Muricy Ramalho modificar a postura santista em pouco tempo, sem uma semana cheia para treinar. Mas funcionou, 11 partidas depois, 15 gols marcados e apenas três sofridos.

Depois de alguns dias de pré-temporada e uma desclassificação precoce na Libertadores, Tite experimentou uma realidade diferente. Teve tempo, mas não conseguiu consertar jogadores em baixa, como Dentinho e Jorge Henrique. Explica-se, então, o fato de no Parque São Jorge a construção de uma nova equipe para o Brasileiro ser mais importante que o Paulista.

Do outro lado da final, sem muito tempo para trabalhar, Muricy escolheu um caminho bastante interessante para explicar aos jogadores a nova maneira de jogar da equipe: mostrou como explorava os defeitos santistas quando era adversário. Agora os zagueiros já não ficam tão expostos. O clube deve pensar e sonhar com a Libertadores, como Arouca. E depois se reforçar para o Brasileiro.M

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