Muricy Ramalho, o papa-títulos

Muricy Ramalho ganhou ontem seu primeiro Brasileiro com um meia-armador de verdade no time. Hoje fora de moda, a denominação da função servia no passado para definir o pensador do jogo no meio de campo, a camisa do responsável pelo passe, o especialista em encontrar e reinventar espaços diante de blocos defensivos cada vez mais sólidos. O argentino Conca foi o grande nome do campeonato, e tomara que sirva de inspiração para a garotada que chega agora ao mundo do futebol. Pois o passe é tão importante e necessário quanto o gol, é a bola precisa, a bola capaz de criar o suspense.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

A exemplo dos anos anteriores, este Brasileiro teve mais emoção que técnica. Como era de se esperar, a última rodada mexeu demais com os nervos, principalmente de corintianos e de tricolores. No final, a tensão se rendeu à lógica, bastava ao Fluminense fazer o mínimo.

Num campeonato indefinido até a última rodada, com três candidatos à taça, não seria difícil explicar também os títulos de Corinthians ou de Cruzeiro. Virtudes e defeitos foram muito bem distribuídos.

Ao longo de 38 rodadas, com direito a uma Copa do Mundo no meio do caminho, o resultado do Flu não foi uma barbada, nem para quem prefere encontrar culpados no time dos outros pela incompetência do seu.

O título não foi decidido fora do campo, apesar de a turma do entrega-entrega ter feito muito mal ao futebol, assim como a Fifa tem agido nas escolhas das sedes dos Mundiais.

Manejar o significado de vitória ou derrota, de acordo com as necessidades do rival, é enfiar o pé no esgoto. O torcedor que pensa dessa maneira está enviando um recado perigoso à instituição e a seus jogadores. Hoje os três pontos interessam, amanhã... O problema não é o sistema de disputa, é o caráter.

Para refrescar a memória, não custa lembrar: o Corinthians foi derrotado duas vezes pelo Atlético-GO. Ou seja, nenhum ponto dos seis disputados contra um dos piores times da competição, com 3 a 1 em Goiânia e um 3 a 4 em São Paulo. Com dois empates teria chegado à última rodada em vantagem. Então, de quem é a culpa? De São Paulo, Palmeiras, Guarani?

Que o trio não se empenhou, ninguém duvida. Mas o Corinthians teria agido diferente? Por que entrar em campo com a disposição de quem joga a final de Copa do Mundo quando nada mais importa? Um escândalo não explica o outro.

No sistema de pontos corridos com 20 clubes, cada um disputa 114 pontos, distribuídos por 38 etapas. Está claro: quem cuidar bem de sua vida não vai precisar se preocupar com os rivais. Pequenas doses de organização e de planejamento certamente ajudam a superar até rivais desestimulados.

Olhar para o Fluminense e não enxergar competência é dor de cotovelo. Nos três títulos consecutivos com o São Paulo, Muricy recebeu críticas por um futebol incapaz de fazer a bola circular com a qualidade desse argentino chamado Conca.

Pois aí está mais um título brasileiro, o quarto do treinador em cinco anos, além de um segundo lugar com o Internacional e de um quinto pelo Palmeiras. E com o melhor jogador do Brasileiro de 2010 como maestro, aquele que sempre desejou ver no São Paulo. Provavelmente ainda será pouco para o treinador se livrar da imagem de criar equipes apenas competitivas. Depois de 26 anos, o Tricolor precisava mesmo de um título Brasileiro. Se melhorar a estrutura, que ainda é deficiente, vai se inserir entre os grandes favoritos do futebol no País. Nas Laranjeiras, dinheiro não tem sido o problema, embora nem sempre seja bem gasto. Mas Muricy, o papa-títulos, o cara que trocou a seleção por mais uma taça, pode dar um jeito nisso.

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