Muritry

Estranho mundo esse do futebol. Um técnico legitimamente tricampeão é demitido de seu cargo, após seu time naufragar pela quarta vez seguida no torneio continental que é tido como prioridade pela diretoria que persegue obstinadamente esse outro título, que passou a ser também a obsessão de sua torcida. A torcida insatisfeita com o novo fracasso grita com entusiasmo e paixão o nome do técnico demitido nas arquibancadas, do mesmo lugar onde ela, assistiu a seu time do coração perder a condição de permanecer no torneio que também era o objetivo de seus jogadores. Os jogadores não conseguem coordenar o discurso proferido por todos do grupo, que reafirma a intenção de priorizar o tal torneio. Parecem estar afinados com a torcida e a diretoria nesse quesito, mas não conseguem coordenar três passes seguidos em campo, revelando que essa coordenação verbal não tem correspondência na parte motora. A própria diretoria não conseguiu emitir ordens coerentes durante a jornada que buscava o épico primeiro posto: distraída por um outro campeonato que ela mesma conjugava no diminutivo, acabou fazendo escolhas erradas que dificultaram a trajetória e acabaram criando dificuldades maiores para aquilo que já seria uma tarefa e tanto. Derrotas sempre precisam de culpados, e nem sempre os responsáveis encontram lógica para dar explicação. Quem estará certo? Difícil saber o que se passa dentro dos muros que cercam o ambiente onde trabalha e convive um grupo de profissionais, especialmente desse ramo esportivo - o futebol. Dezenas de seres humanos vivem seu dia a dia lidando com suscetibilidades de todas as naturezas, sejam psicológicas ou econômicas, com variáveis insondáveis que podem ou não determinar o êxito e a harmonia de um projeto coletivo. Sei por experiência própria, pois vivi 20 anos num regime de trabalho também coletivo, no meu caso 20 anos numa banda de rock?n?roll. Tantas vezes ouvi explicações, teorias, análises, críticas que falavam do resultado de nosso trabalho - músicas, discos e shows - e em geral o que ouvia era completamente disparatado, descolado daquilo que acontecia da realidade de sua construção, das próprias motivações, ou das raízes inspiradoras. Mas a realidade não é tão objetiva como pretende a visão de quem opina de fora. Realidade, nesse caso, não existe. É um apanhado caleidoscópico de visões, impressões, expressões divergentes. Não é sequer a mesma para aqueles que estão ali dentro. Tantas vezes vi que o que eu pensava não batia com aquilo que meus colegas pensavam, tantas vezes vi também que nós nem sabíamos por que havíamos tomado decisões, tanto as corretas quanto as equivocadas. Há muito do acaso nas opções, nas soluções criadas.Um jogo de futebol, como todo projeto de criação coletivo, é como uma conversa, uma troca. Troca de palavras, de passes, de olhares; troca de ofensas ou de gentilezas, também. E essa sucessão de passes, palavras e olhares criam uma ordem, uma lógica, uma forma particular, uma desenho próprio, uma linguagem única, às vezes só entendida por aqueles que participam dessa conversa. Os que estão de fora apenas ouvem os sons dessa música, talvez sem entender o significado enigmático das palavras inventadas.Mas quando é possível perceber comunicação, é porque se estabeleceu uma harmonia. E as coisas fluem. Todo torcedor sabe quando seu time não está em harmonia. O futebol jogado em geral é pífio, raquítico, quase antipático. De cima das arquibancadas não se ouve o que é dito nos vestiários, mas será que não é lá de cima o melhor lugar para enxergar o caos escrito no gramado?

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