Aline Bassi|Balaio de Ideias
Lars e Nicholas Grael Aline Bassi|Balaio de Ideias

Lars e Nicholas Grael Aline Bassi|Balaio de Ideias

Na 4ª geração da família Grael, Nicholas vira nova aposta da vela do Brasil

Filho de Lars e sobrinho de Torben tem tudo para manter a tradição da família no esporte

Felipe Rosa Mendes , Estadão Conteúdo

Atualizado

Lars e Nicholas Grael Aline Bassi|Balaio de Ideias

Se tem algo que une mais a família Grael do que a vela é o respeito pela tradição esportiva. A herança do clã segue avançando pelas raias e oceanos, agora em sua quarta geração. E o mais novo representante da família brasileira mais vitoriosa em Olimpíadas é Nicholas, filho de Lars e sobrinho de Torben. O trio mais os irmãos Martine, campeã olímpica no Rio-2016, e Marco estarão juntos na 70ª edição da Regata Santos-Rio, a mais tradicional do País, a partir desta sexta-feira.

Se Martine é o rosto mais conhecido desta quarta geração dos Grael, Nicholas é a nova aposta. O velejador de 23 anos começou tarde no esporte. Na infância, gostava mesmo era de futebol. "Até os 9 anos eu não tinha muito interesse pela vela. Só em 2006, quando mudei para Brasília, comecei a ter amigos que gostavam de vela. Fui gostando e comecei a praticar", diz o filho de Lars, dono de duas medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos. Dois anos depois, aos 11, Nicholas já surpreendia ao se classificar para o Sul-Americano da classe Optimist.

Ele garante que o pai nunca cobrou que os filhos seguissem a mesma trilha dos barcos e mastros. "Tanto que minhas duas irmãs não velejam. Começaram, mas pararam. Mas sempre teve uma pressão, não da família, mas das outras pessoas. E eu sempre fazia o máximo para ignorar isso. O importante é saber usar isso a seu favor: pegar o lado bom, que é a tradição, as dicas, o contato com as pessoas."

As dicas parecem estar dando resultado para Nicholas. Neste ano, ele conquistou seus principais títulos: os Campeonatos Brasileiros Sudeste e Leste, de alcance regional, e a Taça Octanorm, mais nacional. O sobrinho de Torben costuma competir na classe Snipe, ao lado do parceiro Fábio Horta.

Carregando o peso do sobrenome, Nicholas é o exemplo quase perfeito de alguém que está apoiado "sobre os ombros de gigantes". A história da família vai além das cinco medalhas olímpicas de Torben - que divide o recorde brasileiro com Robert Scheidt, também da vela. Tanto o bicampeão olímpico quanto Lars também souberam herdar a tradição do esporte, que começou na família com o avô deles, e bisavô de Nicholas, Preben Tage Axel Schmidt.

O engenheiro dinamarquês foi um dos pioneiros da vela de competição no Brasil, no início do século XX. E legou aos filhos Axel e Eric a paixão pela modalidade. Os irmãos gêmeos, a segunda geração da família no esporte, foram tricampeões mundiais (61, 63 e 65), ouro no Pan de Chicago-1958 e prata em São Paulo-1963. Estiveram ainda nas Olimpíadas de México e Munique.

Axel morreu em 2018 e Eric, de 81 anos, ainda veleja. E, não por acaso, estará à espera dos familiares no Rio, na chegada da regata deste fim de semana. "Até hoje eles são uma fonte de inspiração. A experiência, o conhecimento dele a gente respeita e reconhece muito. Ele estará na mesma mesa redonda de sempre, no Iate Clube, esperando por nós", diz Lars, que voltou a competir na vela de oceano recentemente.

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Ainda estou estudando a possibilidade de tentar a vaga no ciclo olímpico dos Jogos de Paris-2024
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Nicholas Grael, velejador

"Nossos tios também foram nossos treinadores. O Axel foi meu técnico no Mundial juvenil e o Eric foi meu técnico em duas Olimpíadas, incluindo na primeira medalha de ouro. O Eric tem muito conhecimento técnico e sempre dá conselhos aos meus filhos", lembra Torben, referindo-se a Martine e Marco, que competiu no Rio-2016 na classe 49er.

Aposta da vez, Nicholas tenta repetir o caminho dos primos. Mas, para tanto, terá que superar Marco para alcançar futuramente uma vaga na Olimpíada. Isso porque a classe de Nicholas, a Snipe, não é olímpica. E ele já demonstrou interesse em competir na 49, a mesma do primo. "Ainda estou estudando a possibilidade de tentar a vaga no ciclo olímpico dos Jogos de Paris-2024. Mas teria que competir com o meu primo. Ele é mais velho, muito mais experiente", pondera Nicholas.

Na avaliação de Torben, que é coordenador técnico da Confederação Brasileira de Vela, o sobrinho tem mais chances de sucesso olímpico na futura Olimpíada de Los Angeles, em 2028. "Para os Jogos de 2024 está muito em cima. Acho que essa geração jovem provavelmente não vai estar despontando em Paris, mas em Los Angeles. Mas é claro que sempre existem as exceções."

Disputa em família

A Regata Santos-Rio vai reunir, no total, sete integrantes do clã Grael, que vão competir em barcos maiores, com até 15 tripulantes. No caso dos irmãos Lars e Torben, haverá uma inversão entre os filhos. Nicholas vai velejar com o tio, enquanto Lars terá a companhia do sobrinho Marco. Martine estará em outro barco, assim como Andrea Grael, esposa de Torben. O outro membro da família presente é Kiko Pelicano, cunhado de Lars e medalhista de bronze nos Jogos de Atlanta, ao seu lado, em 1996.

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Irmãos Grael elogiam nova geração da vela e apostam em medalhas em Tóquio

Coordenador técnico da Confederação Brasileira de Vela, Torben aposta em duas medalhas no Japão

Felipe Rosa Mendes, Estadão Conteúdo

23 de outubro de 2020 | 08h12

Acostumados a levar o Brasil ao pódio em Olimpíadas, os irmãos Torben e Lars Grael acreditam que a nova geração da vela tem todas as condições de manter o País brigando pelo topo. E não se restringem aos membros da família. Coordenador técnico da Confederação Brasileira de Vela, Torben aposta em duas medalhas nos Jogos de Tóquio, adiados para 2021.

"Vamos tentar uma ou duas medalhas, está de bom tamanho. Continuamos formando muito jovem com excelente potencial de resultados na vela olímpica", afirma o velejador, em entrevista ao Estadão. "A confederação tem dedicado uma atenção especial à vela jovem para que a gente consiga manter essa garotada competindo para levá-los para a vela olímpica. Isso vai render bons frutos no futuro."

Enquanto a nova geração se prepara para o futuro, Torben aposta principalmente no veterano Robert Scheidt, na classe Laser, e na dupla formada por Fernanda Oliveira e Ana Barbachan, na 470F, sem deixar de mencionar os filhos Martine e Marco. "A Martine e a Kahena Kunze são as atuais campeãs olímpicas e o Marco e o Gabriel fizeram o melhor Mundial deles até agora, em 13º lugar. Estão progredindo bem."

Para Lars, o Brasil deve seguir com sucesso em eventos mundiais, mas sem repetir os feitos do irmão e de Scheidt. "A comparação com Scheidt e Torben não é fácil. Eles são fora de série. É como falar de renovação no automobilismo e comparar com Fittipaldi, Piquet e Senna. Mas tem uma geração de velejadores do Brasil, alguns se aproximando dos 30 anos, idade que na vela você ainda tem bastante lenha para queimar, como o Jorge Zarif, bicampeão mundial. Acredito nele com possibilidade de medalha", comenta o dono de dois bronzes em Jogos Olímpicos.

Na avaliação dos irmãos, o Brasil deve ter bom rendimento na vela em Tóquio apesar de ter aproveitado mal a herança dos Jogos do Rio-2016. "Em termos de legado, poderia ter sido muito mais. Acho que foi feito uma série de investimentos que foram mal aproveitados, tanto na mobilidade quanto com as instalações esportivas, subutilizadas ou deterioradas. É uma pena", afirma Torben.

"Não foi dada a devida atenção para se aproveitar esses investimentos que foram feitos. Em termos do lado dos esportistas, trouxe um nível de investimento que nunca tínhamos tido antes. Mas acontece que não foram muitos os esportes que conseguiram aproveitar esses investimentos para formar centros de treinamento e formação de atleta. Precisamos olhar muito para a base do esporte."

Lars lamenta as "derrotas" que o esporte sofreu no Brasil desde a Olimpíada. "Sediamos o maior evento da humanidade e o legado que ficou foi muito pouco porque o esporte deixou de ter ministério específico, o orçamento caiu muito de lá para cá, não conseguimos equiparação da Lei de Incentivo com a Lei de Incentivo da Cultura."

Para os medalhistas olímpicos, o Brasil perdeu oportunidade de transformar o esporte em política pública. "O esporte deveria ser obrigatório nas escolas. Investimento no esporte é investimento na saúde, é dinheiro que você deixar de gastar na saúde", disse Torben. "Perdemos a oportunidade de promover um grande programa nacional de estímulo à atividade física. Para melhorar os níveis de saúde pública, combater o sedentarismo. O que mais lamento é perder a oportunidade de usar o esporte como elemento de promoção social", afirma Lars, que atuou no governo na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

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