Na África, jogo 3 vezes mais veloz que em 1970

Estudos científicos aprimoram a preparação física dos atletas, que chegam a correr 15 km em uma partida

, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Scanners, GPS (Global Position System, ou sistema de posicionamento global), exames diários de sangue e suplementos alimentares. Esses são alguns dos métodos utilizados pela fisiologia, com base em estudos científicos, para que cada vez mais se possa preparar e extrair fisicamente de um jogador de futebol. O extenso calendário de jogos e a exigência extrema da parte orgânica, desde as categorias de base, tornam os atletas verdadeiras máquinas. Os 736 jogadores que estarão a partir do dia 11 de junho em ação na África do Sul correm três vezes mais do que aqueles que estiveram no Mundial do México há 40 anos.

Com treinamentos individualizados de acordo com porte físico, função tática e idade, os jogadores podem atingir a distância percorrida de até 15 quilômetros durante os 90 minutos de uma partida, muito diferente dos 5 ou 6 quilômetros percorridos, em média, na Copa de 70. "E você pode contar isso como o dobro de esforço, pois um jogo de futebol não se trata de uma corrida contínua. Muitas são as modificações de trajeto, direção, velocidade e aceleração", afirma Sylvio Noronha Sacramento, médico especializado em Medicina do Esporte e Artroscopia.

Paulo Zogaib, médico que trabalha no Palmeiras e no Pinheiros, revela que alguns jogadores, que atuam nas alas ou laterais e como volantes, chegam a dar 50 piques de 10 metros durante as partidas. "O desgaste é muito grande. Por isso que não se pode expor os atletas a tantos jogos como se faz atualmente."

Os trabalhos fisiológicos não eram bem aceitos pelos atletas há 20 anos. "Diziam que a musculação deixava pernas e braços travados e o atleta mais pesado. Enquanto o alongamento após os jogos, que é feito nos vestiários, quando ocorre no campo era tratado como um castigo para os times que tinham perdido", lembra Zogaib, que esteve pela primeira vez no Palmeiras em 1994. Atualmente, diz, o clube que não oferecer todo um amparo físico não é bem visto pelos jogadores.

Ao mesmo tempo em que se procura dar o melhor condicionamento para que o jogador tenha o maior desempenho dentro de campo, o risco de contusões torna-se muito maior por causa da sobrecarga de treinos e jogos. Com isso, algumas lesões se tornaram mais "populares". É o caso da pubalgia, conhecida antigamente com0 "fisgadinha na coxa" e do rompimento do ligamento cruzado anterior dos joelhos, a chamada "água no joelho".

A pubalgia, que aflige Kaká, astro do Real Madrid, é uma dor no púbis, um dos ossos da bacia. Ela pode se tornar crônica nos músculos adutores da perna ou na parede abdominal.

Sylvio Sacramento informa que uma hora de exercícios em alto nível causa um afrouxamento de um centímetro no ligamento cruzado anterior dos joelhos. Com o relaxamento, volta ao tamanho normal, mas o excesso de esforço pode causar problemas a longo prazo.

Outro problema que o "overtraining" pode causar, segundo Sylvio, é a falência do sistema das terminações nervosas que estão dentro do ligamento cruzado anterior, que recebem mensagens do cérebro para que contraiam a musculatura da perna para evitar torções.

"Água no joelho" foi o motivo para que muitos craques do passado tivessem suas carreiras abreviadas. Foi o caso do atacante Reinaldo, do Atlético-MG, na década de 70. Mais de duas décadas depois, Leandro Amaral, que atuou pela Portuguesa, São Paulo, Corinthians, entre outros, teve os mesmos problemas de Reinaldo e ainda segue em atividade. Vitória da ciência. / W.B.Jr.

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