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Na estaca zero

Um clube com a dimensão do Corinthians não pode observar a crise com o mesmo espanto do torcedor. Ao decretar o retorno à estaca zero, comparando o momento atual à reconstrução imposta pelo rebaixamento no Campeonato Brasileiro de 2007, o presidente Mário Gobbi está, na verdade, assumindo o fracasso, embora não pense assim.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2014 | 02h06

O recomeço corintiano deveria ser visto como um revés, uma falha, não como uma contingência natural do futebol. Antes mesmo de Mário Gobbi anunciar o fim de uma era, o desastre havia sido materializado pela ação criminosa de alguns torcedores na invasão ao CT.

O comando atual não conseguiu aproveitar a melhor fase de sua instituição para saltar da gangorra que caracteriza o futebol brasileiro. O Corinthians foi surpreendido pela queda de rendimento de praticamente toda a equipe. Primeiro, apostou na troca de treinador, depois veio a goleada para o Santos e a constatação de que o caminho era reformular tudo.

A limpeza do elenco foi impulsionada pela invasão do centro de treinamento. E assim, de invasão em invasão, o clube vai estabelecendo seus ciclos. Foi assim quando carros de jogadores e funcionários foram atacados em fevereiro de 2011, após a derrota para o Tolima, na primeira fase da Copa Libertadores.

Com Tite mantido no cargo, muitos poderão imaginar que do terror brotou o time campeão brasileiro da temporada. Certamente os vândalos daquela época se veem como os verdadeiros responsáveis pela construção da equipe que também venceu a Libertadores e o Mundial.

Aconteceram avanços importantes desde o rebaixamento, principalmente na infraestrutura do clube, mas o pensamento continua pequeno. Voltar à estaca zero significa retornar várias casas no jogo.

Não custa lembrar, entretanto, que houve pressão de torcedores para que o contrato de Emerson Sheik fosse renovado em julho, quando era patente o declínio técnico do atacante. Agora, a pressão é para que ele deixe o clube. Está claro que o comando da instituição, com seus erros e acertos, deve agir sozinho. O que nem sempre acontece no Corinthians, historicamente conivente com os atos violentos de seus torcedores.

Afinal, não há notícia de que alguém tenha sido acionado judicialmente pela perda de mandos de campo e de receitas. Milhões de reais deixaram de ser arrecadados devido a punição dos tribunais. Se o clube pensa diferente, que faça diferente. Não basta reclamar, é preciso agir. Por enquanto, prefere assumir o prejuízo sozinho.

A principal medida do novo ciclo em curso foi se livrar de Alexandre Pato, que aos 17 anos trocou o Internacional pelo Milan e estabeleceu sua identidade futebolística dentro de parâmetros que não se encaixam no futebol brasileiro. Nem no futebol italiano, que deve ter comemorado o negócio quando se livrou dele.

O meia Jadson entrou como parte do acordo com o São Paulo e é esperado para o clássico de domingo contra o Palmeiras, para compor o meio de campo ao lado de Renato Augusto. Mano Menezes mudou o desenho tático da equipe, imagina compor o meio de campo com dois meias, mais próximo do 4-4-2 do que do 4-2-3-1 de Tite.

Inadmissível, porém, é essa conversa de voltar à estaca zero, o Corinthians reconhece que não soube trabalhar. E seu presidente não pensou no impacto de suas palavras. Os clubes definidos como grandes, com todo o risco que carregam, precisam enxergar além do próximo jogo.

O futebol está longe de ser uma atividade estável. Como qualquer empresa, é preciso trabalhar duro para sobreviver, crescer e manter-se forte em um mercado difícil. Embora tenha o consumidor mais fiel do planeta, a incerteza é sua matéria-prima. Um tornozelo machucado e todo planejamento de um ano vai para o espaço.

A linha de produção do esporte não pode ser comparada a uma fábrica de sabonetes, mas certamente poderia se espelhar em práticas gerenciais mais sólidas.

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