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Na hora a gente resolve

Não se trata de um joguinho qualquer. A partida contra o Japão na Copa das Confederações reforça a tradição brasileira do improviso, bastante presente também no futebol. Antes visto como o encontro entre professores e aprendizes, hoje o confronto pode reservar algumas surpresas. Didaticamente, simboliza o retrocesso brasileiro e ajuda a compreender a evolução dos asiáticos num esporte em que sempre tiveram dificuldade.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h03

A exemplo das cidades e dos estádios da Copa, a seleção também está em obras. Difícil é saber o que anda mais atrasado. No dia 30 de outubro de 2007, a Fifa escolheu o Brasil como a sede de 2014. Havia tempo suficiente para preparar o País e o time.

A ideia generalizada de que "na hora a gente resolve" tomou conta das ações dentro e fora do campo. Infelizmente o sucesso do Brasil como organizador de um dos maiores eventos globais não está garantido.

Muito do que foi colocado na matriz das nossas responsabilidades ajudará apenas a engordar a lista de promessas. O legado do Mundial está claro. De um lado, a herança alemã de 2006 e seus estádios funcionais e lucrativos. Do outro, as dívidas e as dúvidas sul-africanas de 2010. O que fazer com os elefantes brancos?

Felipão não precisa se preocupar com isso. Desde o seu retorno, o treinador teve sete partidas para desenhar uma equipe capaz de evoluir aceleradamente até a Copa do Mundo. Até lá deverão ocorrer ajustes, mas a boa notícia é que existe uma base, um ponto de partida.

O tempo é curto. Há responsabilidade demais sobre jogadores com pouca experiência em seleção, gente como David Luís, Paulinho, Hernanes, Neymar, Hulk, Lucas e Oscar. Daí a importância da Copa das Confederações. Se for finalista, o Brasil terá cinco partidas para trabalhar a autoestima, desenvolver a confiança e alcançar um nível de competição mais avançado.

Os valores necessários para a construção de uma verdadeira equipe estão interligados. Se houver sinais positivos, é provável que Neymar se liberte, apesar de afirmar que não levará ao time de Felipão o futebol jogado no Santos. É uma forma de defesa.

Essa, entretanto, talvez seja uma situação mais presente na vida de Messi do que na de Neymar. A seleção brasileira sempre será superior ao melhor Santos que Neymar jogou. Já o craque argentino sempre atuará num grupo inferior ao Barça de Xavi e Iniesta, a base da Espanha desta Copa das Confederações.

O grande perigo é a divisão no campo, sem a integração entre defesa, meio de campo e ataque. Quando os jogadores formarem uma equipe de verdade, estarão prontos para lutar por títulos.

O tempo é curto, a vitória sobre a França foi a primeira nos últimos três anos e meio sobre uma potência do futebol. E nem foi sobre a melhor formação francesa disponível. "Na hora a gente resolve" não pode ser mais aceito. É preciso organizar o futuro. A CBF já deveria estar trabalhando pela geração que disputará a Copa do Mundo de 2022. O time que daqui nove anos terá a responsabilidade de representar o Brasil no Qatar, neste momento corre atrás de uma bola e de um sonho por aí.

São os meninos na faixa entre 12 e 17 anos. O mesmo vale para os Jogos Olímpicos. Os vencedores não são formados dois ou três anos antes de uma competição.

Cuidar da seleção não é entregá-la nas mãos de dois campeões mundiais um ano antes da estreia na Copa. É jogada para se livrar da responsabilidade, com a desculpa óbvia em caso de derrota de que não havia mais o que fazer.

E lá vamos nós, sustentados por falsas crenças, apoiadas no discurso de que o país do futebol tudo pode. Como planejamento não é o forte por aqui, nossos títulos insistem em driblar dificuldades e improvisos.

Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira não fugiriam da missão de conduzir a seleção no Mundial em casa. Mas sabem que ao escolhê-los José Maria Marin transferiu a responsabilidade. Na hora a gente resolve.

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