Na 'malha fina' de uma Olimpíada

Os Jogos de Londres vão apostar na quantidade, na velocidade e no longo prazo de validade dos exames antidoping

VALÉRIA ZUKERAN, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2012 | 03h06

SÃO PAULO - A cada quatro anos um fantasma assombra os Jogos Olímpicos. Seu nome é doping. O maior pesadelo para os dirigentes envolvidos com os Jogos - depois do terrorismo - é descobrir que reverenciou um atleta que venceu na base da trapaça.

Desde sua fundação, em 1999, a Agência Mundial de Antidoping (Wada) se preocupa em aperfeiçoar seus equipamentos e protocolos para os exames antidoping. Segundo o membro da comissão médica do Comitê Olímpico Internacional (COI) Eduardo de Rose tais procedimentos não sofreram modificações significativas nos últimos quatro anos.

Para os Jogos de Londres, 107 atletas foram excluídos em exames feitos antes da competição, e a aposta durante o evento será na quantidade e na velocidade da divulgação dos resultados, além do longo prazo de armazenamento do material. Serão coletadas 5 mil amostras a serem processadas por 150 cientistas do laboratório de Harlow, Inglaterra. Cerca de metade dos atletas olímpicos será testada.

Recentemente, o material dos Jogos de Atenas, em 2004, voltou para o laboratório. "Provavelmente para detectar a presença de eritropoietina (EPO). Na época os exames não eram tão avançados", ressalta De Rose. O mesmo pode acontecer, no futuro, com as amostras de Londres.

Sangue ou de urina? Marco Michelucci, oficial médico da Fifa e consultor e oficial de controle de dopagem da Agência Brasileira de Antidoping e da Wada, explica que a eficiência de cada método depende do esporte. "Existem substâncias que são detectadas só na urina e, outras, só no sangue. O ideal é sempre fazer os dois", opina. Mas, segundo ele, existem modalidades em que não há justificativa para o exame de sangue - o de urina cobre as substâncias potenciais de doping - enquanto em outros, como ciclismo, triatlo e maratona, só os dois exames abrangem todos os elementos.

Como é. O exame antidoping é feito com base em um conjunto de regras a serem obedecidas por atletas, escoltas, agentes de controle de doping e cientistas, chamado de cadeia de conduta. Todos têm direitos e deveres. O não cumprimento dos deveres por parte do atleta pode resultar em sua punição - mesmo em caso de resultado negativo -, da mesma forma que um erro dos oficiais de doping ou dos técnicos pode resultar tanto na anulação de um positivo quanto na punição de fiscais e laboratórios.

Maurício Arruda Campos, diretor da Comissão Antidoping da Federação Internacional de Fisiculturismo e Fitness (IFBB) orientou os atletas brasileiros que foram ao Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. "A maioria dos atletas não sabia dos procedimentos e os direitos que eles tinham no controle de doping. Algumas vezes, nem as obrigações eles sabiam."

Entre as orientações, algumas são básicas, como a obrigação do escolta não perder o atleta de vista, a partir do momento que ele informa que ele será submetido a exame até a entrada na área de coletas das amostras. "E, na hora que ele vai, tem de levar uma bolsinha com água, isotônicos ou outras bebidas. Se o atleta pedir: 'pega água para mim', o escolta é orientado a dizer: 'Não. Você escolhe o que quer.' Precisa ser dessa forma porque, se não, o atleta pode dizer 'ele me deu uma garrafa, eu notei alguma coisa, eu notei que estava aberta', ou coisas do gênero."

Na sala de controle, o oficial só toca nos frascos depois que o atleta concluiu o exame. Nem o vaso sanitário escapa. "Jogamos líquido de cor diferente da água para evitar que o atleta dilua a urina." Todo cuidado é pouco.

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