Don Ryan/AP
Don Ryan/AP

Na Nike, funcionárias protestam contra apoio a Alberto Salazar

Ato ocorreu duas semanas depois de um grupo de funcionárias da companhia detalharem casos de assédio sexual e discriminação de gênero

Kevin Draper e Julie Creswell, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2019 | 11h36

Centenas de empregadas da Nike, enraivecidas com o apoio da empresa ao treinador Alberto Salazar e o tratamento que a companhia dá às suas funcionárias e atletas que patrocina, realizaram um protesto na segunda-feira, 9, na sede da empresa em Beaverton, Oregon.

No mesmo dia em que a empresa reabriu um prédio que passou por reformas com o nome de Alberto Salazar, as funcionárias se reuniram em torno de um lago no lado leste do campus de 120 hectares da companhia, portando cartazes como um amarelo onde estava  escrito “Faça a coisa certa”, e outros com dizeres como: “Como a Nike pode apoiar melhor as mulheres”, expressando apoio a Mary Cain, ex-corredora da Nike que no mês passado declarou estar “sendo emocional e fisicamente abusada por um sistema concebido por Alberto e endossado pela Nike.”

Os protestos foram realizados duas semanas depois de um grupo de funcionárias da companhia detalharem casos de assédio sexual e discriminação de gênero na Nike em pesquisas enviadas aos executivos do alto escalão da empresa, o que ocasionou demissões e um processo por discriminação de gênero. O protesto realizado na segunda-feira foi o sinal mais visível de que o descontentamento entre as empregadas da companhia persiste.

Embora bem menor e menos combativo do que o movimento das funcionárias da Google, ou manifestações realizadas em outras empresas de tecnologia, este protesto na Nike é um novo desafio para uma empresa que passa por mudanças em sua liderança que, durante décadas, desfrutava de uma extrema lealdade por parte das suas funcionárias.

Um folheto distribuído no campus insistia para a Nike “ser coerente com o que diz” e não chamou o evento de protesto, mas o anunciou como “uma caminhada pelo campus para celebrar o que as mulheres trazem para o esporte”. Outro folheto, obtido pela Willamette Week, a primeira a reportar os protestos, era um alerta para as funcionárias de que se falassem com jornalistas poderiam ser demitidas.

A Nike declarou que o folheto não foi distribuído pela companhia. “Respeitamos e acolhemos o feedback das funcionárias em assuntos que são importantes para elas”, declarou a empresa em um comunicado feito após a manifestação.

De acordo com a Willamette Week, a Nike foi informada da planejada manifestação no domingo e alertou as empregadas para não interromperem a cerimônia de reabertura do prédio que levou o nome de Salazar. Elas não interromperam, mas isto não as impediu de realizarem o protesto.

O novo prédio com o nome de Salazar, que foi três vezes campeão da maratona da cidade de Nova York e treinador de atletas patrocinados pela Nike, estava fechado para reformas.

Na Nike, ter um prédio que leva seu nome em sua homenagem é um dos tributos mais antigos e mais elevados da companhia. O prédio Alberto Salazar, um dos edifícios mais antigos da empresa, está entre o que leva o nome do tenista John McEnroe e o que homenageia Dan Fouts, quarterback aposentado. Está na frente do Steve Prefontaine Hall, que homenageia um herói folclórico da corrida americana moderna.

Mas em setembro Alberto Salazar foi proibido de correr durante quatro anos por doping, e várias corredoras, além de Mary Cain, revelaram ter sofrido abusos quando ele era seu treinador. Mas a Nike continuou a dar apoio a Salazar em meio às controvérsias e renomeou o prédio em sua homenagem.

Em 2012 a empresa mudou os nomes do Joe Paterno Child Development Center - que homenageava o treinador Penn State - depois de um escândalo de abuso sexual envolvendo Jerry Sandusky, e do Lance Armstrong Fitness Center, depois de agência antidoping dos Estados Unidos acusar o ciclista campeão de usar drogas para melhorar seu desempenho.

As funcionárias da Nike, antigas e atuais, disseram que embora o protesto da segunda-feira fosse contra o nome de Alberto Salazar num edifício da empresa e o tratamento que a companhia dá a atletas de elite, ele também tinha a ver com a constante frustração das empregadas quanto às oportunidades de carreira num clima que, segundo elas, sempre foi de “clube do bolinha”.

Diversas corredoras detalharam como seus contratos com a empresa as penalizavam caso engravidassem, forçando a companhia a extinguir essas penalidades face à indignação pública. E quando Cain detalhou como era a vida de uma jovem dentro do Nike Oregon Project, o programa de corrida da companhia conduzido por Salazar levou corredoras como Yoder Begley, Kara Goucher, e outras, a também revelarem suas experiências humilhantes.

Desde então a Nike encerrou o projeto e anunciou que investigará aqueles casos. E comunicou uma próxima mudança na liderança: Mark Parker, diretor executivo da companhia desde 2006, anunciou sua saída no início do próximo ano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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